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BIBLIOTECA DA LUSOFONIA: ANTERO DE QUENTAL
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Reply  Message 1 of 7 on the subject 
From: QUIM TROVADOR  (Original message) Sent: 30/11/2009 10:04
 
Moncloa sunset
 
Lacrimae Rerum

Noite, irmã da Razão e irmã da Morte,
Quantas vezes tenho eu interrogado
Teu verbo, teu oráculo sagrado,
Confidente e intérprete da Sorte!

Aonde são teus sóis, como coorte
De almas inquietas, que conduz o Fado?
E o homem porque vaga desolado
E em vão busca a certeza que o conforte?

Mas, na pompa de imenso funeral,
Muda, a noite, sinistra e triunfal,
Passa volvendo as horas vagarosas...

É tudo, em torno a mim, dúvida e luto;
E, perdido num sonho imenso, escuto
O suspiro das coisas tenebrosas...

Antero de Quental

 
   
 
 
 

 

Nocturo

Antero de Quental
 
Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo – triste e lento –
Que voga e subtilmente se insinua,
Sobre o meu coração, que tumultua,
Tu vertes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando, entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Génio da Noite, e mais ninguém!
 

~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~


 
   
 
 
 
 
 

 

 

APARIçãO

 

Antero de Quental

 

Um dia, meu amor, (e talvez cedo,

Que já sinto estalar-me o coração!)

Recordarás com dor e compaixão

as ternas juras que te fiz a medo.

 

Então, da casta alcova no segredo,

da lamparina ao trêmulo clarão,

ante ti surgirei, espectro vão,

larva fugida ao sepulcral degredo...

 

E tu, meu anjo, ao ver-me, entre gemidos

e aflitos ais, estenderás os braços

tentando segurar-te aos meus vestidos...

 

- "Ouve! espera!" - Mas eu, sem te escutar,

fugirei, como um sonho, aos teus abraços

e como fumo sumir-me-ei no ar!

 

 


 
   
 






PEPA

Antero de Quental

Dá-me pois olhos e lábios;
Dá-me os seios, dá-me os braços;
Dá-me a garganta de lírio;
Dá-me beijos, dá-me abraços!

Empresta-me a voz ingênua
Para eu com ela orar
A oração de meus cantos
De teu seio no altar!

Empresta-me os pés, gazela,
Para que eu possa correr
O vasto mundo que se abre
Num teu rir, num teu dizer!

Empresta-me a tua inocência,
Para eu ir ao céu voar...
Mas acende cá teus olhos
Para que eu possa voltar!

Por Deus to peço, senhora,
Que tu mo queiras fazer;
Dá-me os cílios de teus olhos
Para eu adormecer;

Porque, enquanto os tens abertos,
Sempre para aqui a olhar,
Não posso fechar os meus,
E sempre estou a acordar!

Pela Santa-Virgem peço
Que tu me queiras sorrir;
Porque eu tenho um lírio douro
Há três anos por abrir, 

E, se lhe deres um riso,
Há-de cuidar que e a aurora...
E talvez que o lírio se abra,
Talvez que se abra nessa hora!

Por Alá, minha palmeira!
Quando ao sol me for deitar,
Faze sombra do meu lado...
Por que eu quero-te abraçar!

Damor te requeiro, ondina,
Quando te fores a erguer,
Ver-te no espelho das fontes...
Porque eu quero-te beber!



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Reply  Message 2 of 7 on the subject 
From: QUIM TROVADOR Sent: 30/11/2009 17:26
 

 

 

DESESPERANçA

 

Antero de Quental

 

 Vai-te na asa negra da desgraça,

pensamento de amor, sombra duma hora,

que abracei com delírio, vai-te embora,

como nuvem que o vento impele... e passa

 

Que arrojemos de nós quem mais se abraça,

com mais nsia, à nossa alma! e quem devora

cessa alma o sangue, com que mais vigora,

como amigo comungue à mesma taça!

 

Que seja sonho apenas a esperança,

 enquanto a dor eternamente assiste,

 e só engane nunca a desventura!

 

Se em silêncio sofrer fora vingança!. 

Envolve-te em ti mesma, ó alma triste, 

talvez sem esperança haja ventura!


 
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    IDEAL

 
Antero de Quental

 

 Aquela que eu adoro não é feita

de lírios nem de rosas purpurinas,

não tem as formas lnguidas, divinas,

da antiga Vênus de cintura estreita.

 

Não é a Circe, cuja mão suspeita

compõe filtros mortais entre ruínas,

nem a Amazona, que se agarra às crinas

dum corcel e combate satisfeita.

 

A mim mesmo pergunto, e não atino

com o nome que dê a essa visão 

que ora amostra ora esconde o meu destino.

 

É como uma miragem que entrevejo

 Ideal, que nasceu na solidão, 

Nuvem, sonho impalpável do Desejo...

 


 
   
 
 
 
 

 

 

Intimidade

Quando, sorrindo, vais passando, e toda 
Essa gente te mira cobiçosa, 
És bela - e se te não comparo à rosa, 
É que a rosa, bem vês, passou de moda... 

Anda-me às vezes a cabeça a roda, 
Atrás de ti também, flor caprichosa! 
Nem pode haver, na multidão ruidosa, 
Coisa mais linda, mais absurda e doida. 

Mas é na intimidade e no segredo, 
Quando tu coras e sorris a medo, 
Que me apraz ver-te e que te adoro, flor! 

E não te quero nunca tanto (ouve isto) 
Como quando por ti, por mim, por Cristo, Juras
- mentindo - que me tens amor... 

( Antero de Quental )

 

 


Reply  Message 3 of 7 on the subject 
From: QUIM TROVADOR Sent: 30/11/2009 17:28
 
 

       


NOTURNO

Antero de Quental

Espírito que passas, quando o vento
Adormece no mar e surge a Lua,
Filho esquivo da noite que flutua,
Tu só entendes bem o meu tormento...

Como um canto longínquo - triste e lento-
Que voga e sutilmente se insinua,
Sobre o meu coração que tumultua,
Tu vestes pouco a pouco o esquecimento...

A ti confio o sonho em que me leva
Um instinto de luz, rompendo a treva,
Buscando. entre visões, o eterno Bem.

E tu entendes o meu mal sem nome,
A febre de Ideal, que me consome,
Tu só, Gênio da Noite, e mais ninguém!



                                                                                                                                


Reply  Message 4 of 7 on the subject 
From: QUIM TROVADOR Sent: 30/11/2009 17:29


 



OCEANO NOX

Antero de Quental

Junto do mar, que erguia gravemente
A trágica voz rouca, enquanto o vento
Passava como o vôo do pensamento
Que busca e hesita, inquieto e intermitente,

Junto do mar sentei-me tristemente,
Olhando o céu pesado e nevoento,
E interroguei, cismando, esse lamento
Que saía das coisas, vagamente...

Que inquieto desejo vos tortura,
Seres elementares, força obscura?
Em volta de que idéia gravitais?
Mas na imensa extensão, onde se esconde
O Inconsciente imortal, só me responde
Um bramido, um queixume, e nada mais...


Reply  Message 5 of 7 on the subject 
From: QUIM TROVADOR Sent: 30/11/2009 17:30

                    syhrll.jpg picture by pllusa06


NA MãO DE DEUS

Antero de Quental

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.

Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorncia infantil, despôjo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.

Como criança, em lôbrega jornada,
Que a mãe leva ao colo agasalhada
E atravessa, sorrindo vagamente,
Selvas, mares, areias do deserto...
Dorme o teu sono, coração liberto,
Dorme na mão de Deus eternamente!



Reply  Message 6 of 7 on the subject 
From: QUIM TROVADOR Sent: 30/11/2009 17:33
 
 
 
A um Poeta

(surge et ambula)

Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno.

Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno
Afugentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! É a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! São canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

Antero de Quental

 
   
 
 
O Palácio da Ventura

Sonho que sou um cavaleiro andante.
Por desertos, por sóis, por noite escura,
Paladino do amor, busco anelante
O palácio encantado da Ventura!

Mas já desmaio, exausto e vacilante,
Quebrada a espada já, rota a armadura...
E eis que súbito o avisto, fulgurante
Na sua pompa e aérea formosura!

Com grandes golpes bato à porta e brado:
Eu sou o Vagabundo, o Deserdado...
Abri-vos, portas de ouro, ante meus ais!

Abrem-se as portas douro com fragor...
Mas dentro encontro só, cheio de dor,
Silêncio e escuridão - e nada mais!

Antero de Quental

 
   
 
 
 
Consulta

Chamei em volta do meu frio leito
As memórias melhores de outra idade,
Formas vagas, que às noites, com piedade,
Se inclinam, a espreitar, sobre o meu peito...

E disse-lhes: No mundo imenso e estreito
Valia a pena, acaso, em ansiedade
Ter nascido? Dizei-mo com verdade,
Pobres memórias que eu ao seio estreito.

Mas elas perturbaram-se - coitadas!
E empalideceram, contristadas,
Ainda a mais feliz, a mais serena...

E cada uma delas, lentamente,
Com um sorriso mórbido, pungente,
Me respondeu: - Não, não valia a pena!

Antero de Quental

 
   
Hercules caves, Tangier
 
A Germano Meireles

Só males são reais, só dor existe:
Prazeres só os gera a fantasia;
Em nada[, um] imaginar, o bem consiste,
Anda o mal em cada hora e instante e dia.

Se buscamos o que é, o que devia
Por natureza ser não nos assiste;
Se fiamos num bem, que a mente cria,
Que outro remédio há [aí] senão ser triste?

Oh! Quem tanto pudera que passasse
A vida em sonhos só. E nada vira...
Mas, no que se não vê, labor perdido!

Quem fora tão ditoso que olvidasse...
Mas nem seu mal com ele então dormira,
Que sempre o mal pior é ter nascido!

Antero de Quental

 
   
 
 
Taormina
 
O Convertido

Entre os filhos dum século maldito
Tomei também lugar na ímpia mesa,
Onde, sob o folgar, geme a tristeza
Duma nsia impotente de infinito.

Como os outros, cuspi no altar avito
Um rir feito de fel e de impureza...
Mas um dia abalou-se-me a firmeza,
Deu-me um rebate o coração contrito!

Erma, cheia de tédio e de quebranto,
Rompendo os diques ao represo pranto,
Virou-se para Deus minha alma triste!

Amortalhei na Fé o pensamento,
E achei a paz na inércia e esquecimento...
Só me falta saber se Deus existe!

Antero de Quental

Reply  Message 7 of 7 on the subject 
From: QUIM TROVADOR Sent: 30/11/2009 17:43

 
   

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 MARIA

Antero de Quental

Tenho cantado esperanças...
Tenho falado damores...
Das saudades e dos sonhos
Com que embalo as minhas dores... 

Entre os ventos suspirando
Vagas, tênues harmonias,
Tendes visto como correm
Minhas doidas fantasias.

E eu cuidei que era poesia
Todo esse louco sonhar...
Cuidei saber o que e vida
Só porque sei delirar... 

Só porque a noite, dormindo
Ao seio duma visão,
Encontrava algum alivio,
Meu dorido coração,

Cuidei ser amor aquilo
E ser aquilo viver...
Oh! que sonhos que se abraçam
Quando se quer esquecer !

Eram fantasmas que a noite
Trouxe, e o dia já levou...
A luz d?estranha alvorada
Hoje minha alma acordou !

Esquecei aqueles cantos...
Só agora sei falar !
Perdoa-me esses delírios...
Só agora soube amar !


 
   
 
 

 

MORS — AMOR

Antero de Quental

Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas,

Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável, mas plácido, no porte,
Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz: "Eu sou a morte!"
Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor!"

                                                                                                  


 
   
 



PRIMEIROS CONSELHOS DO OUTONO

Antero de Quental

Ouve tu, meu cansado coração,
O que te diz a voz da Natureza:
- Mais te valera, nu e sem defesa,
Ter nascido em asperrima solidão,

Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel devesa,
Do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalou, no berço da ilusão!

Mais valera a tua alma visionaria,
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba varia,

(Sem ver uma só flor das mil, que amaste,)
Com ódio e raiva e dor - que ter sonhado
Os sonhos ideais que tu sonhaste! -

                                                                 



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