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BIBLIOTECA DA LUSOFONIA: FERNANDO PESSOA
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Reply  Message 1 of 59 on the subject 
From: QUIM TROVADOR  (Original message) Sent: 30/11/2009 09:33
 

 

Poema em linha reta Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

 



E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.



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Reply  Message 2 of 59 on the subject 
From: NOVA ARCÁDIA Sent: 01/12/2009 14:48
 
Astral Voyage
 
 O infante
 
 
Deus quer,  o homem sonha, a obra nasce.
Deus quis que a terra fosse  toda uma,
Que o mar unisse, já não separasse.
Sagrou-te, e foste desvendando a espuma,
 
E a orla branca foi de ilha em continente,
Clareou, correndo, até ao fim do mundo.,
E viu-se a terra inteira, de repente,
Surgir, redonda, do azul profundo.
 
Quem te sagrou criou-te português.
Do mar e nós em ti nos deu sinal.
Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez.
Senhor, falta cumprir-se Portugal.!
 
Fernando Pessoa
 
 

Reply  Message 3 of 59 on the subject 
From: NOVA ARCÁDIA Sent: 01/12/2009 14:49

Não digas nada

Fernando Pessoa

 

Não digas Nada!

Nem mesmo a verdade

Há tanta suavidade em nada se dizer

E tudo se entender...

Tudo metade

De sentir e de ver...

Não digas nada

Deixa esquecer

Talvez que amanhã

Em outra paisagem

Digas que foi vã

Toda essa viagem

Até onde quis

Ser quem me agrada...

Mas alí fui feliz

Não digas nada.


Reply  Message 4 of 59 on the subject 
From: NOVA ARCÁDIA Sent: 01/12/2009 14:55

 
Quinto Império
 
Vibra, clarim, cuja voz diz.
Que outrora ergueste o grito real
Por D. João, Mestre de Aviz,
E Portugal!
 
Vibra, grita aquele hausto fundo
Com que impeliste, como um remo,
Em El-Rei D. João Segundo
O Império extremo!
 
Vibra, sem lei ou com lei,
Como aclamaste outrora em vão
O morto que hoje é vivo — El-Rei 
D. Sebastião!
 
Vibra chamando, e aqui convoca 
O inteiro exército fadado
Cuja extensão os pólos toca 
Do mundo dado!
 
Aquele exército que é feito
Do quanto em Portugal é o mundo 
E enche este mundo vasto e estreito 
De ser profundo.
 
Para a obra que há que prometer 
Ao nosso esforço alado em si, 
Convoco todos sem saber 
(É a Hora!) aqui!
 
Os que, soldados da alta glória, 
Deram batalhas com um nome, 
E de cuia alma a voz da história 
Tem sede e fome.
 
E os que, pequenos e mesquinhos,
No ver e crer da externa sorte,
Convoco todos sem saber
Com vida e morte.
 
Sim, estes, os plebeus do Império;
Heróis sem ter para quem o ser,
Chama-os aqui, ó som etéreo
Que vibra a arder!
 
E, se o futuro é já presente
Na visão de quem sabe ver,
Convoca aqui eternamente
Os que hão de ser!
 
Todos, todos!  A hora passa,
O gênio colhe-a quando vai.
Vibra!  Forma outra e a mesma raça
Da que se esvai.
 
A todos, todos, feitos num
Que é Portugal, sem lei nem fim,
Convoca, e, erguendo-os um a um,
Vibra, clarim!
 
E outros, e outros, gente vária,
Oculta neste mundo misto.
Seu peito atrai, rubra e templária,
A Cruz de Cristo.
 
Glosam, secretos, altos motes, 
Dados no idioma do Mistério —
Soldados não, mas sacerdotes, 
Do Quinto império.
 
Aqui!  Aqui!  Todos que são.  
O Portugal que é tudo em si, 
Venham do abismo ou da ilusão, 
Todos aqui!
 
Armada intérmina surgindo,
Sobre ondas de uma vida estranha.  
Do que por haver ou do que é vindo —
É o mesmo: venha!
 
Vós não soubesses o que havia
No fundo incógnito da raça,
Nem como a Mão, que tudo guia,
Seus planos traça.
 
Mas um instinto involuntário,
Um ímpeto de Portugal,
Encheu vosso destino vário
De um dom fatal.
 
De um rasgo de ir além de tudo,
De passar para além de Deus,
E, abandonando o Gládio e o escudo,
Galgar os céus.
 
Titãs de Cristo!  Cavaleiros
De uma cruzada além dos astros, 
De que esses astros, aos milheiros, 
São só os rastros.
 
Vibra, estandarte feito som,
No ar do mundo que há de ser.
Nada pequeno é justo e bom.
Vibra a vencer!
 
Transcende a Grécia e a sua história
Que em nosso sangue continua!
Deixa atrás Roma e a sua glória
E a Igreja sua!
 
Depois transcende esse furor
E a todos chama ao mundo visto.
Hereges por um Deus maior
E um novo Cristo!
 
Vinde aqui todos os que sois,
Sabendo-o bem, sabendo-o mal,
Poetas, ou Santos ou Heróis
De Portugal.
 
Não foi para servos que nascemos
De Grécia ou Roma ou de ninguém.
Tudo negamos e esquecemos:
Fomos para além.
 
Vibra, clarim, mais alto!  Vibra!
Grita a nossa nsia já ciente
Que o seu inteiro vôo libra
De poente a oriente.
 
Vibra, clarim!  A todos chama!
Vibra!  E tu mesmo, voz a arder,
O Portugal de Deus proclama
Com o fazer!
 
O Portugal feito Universo,
Que reúne, sob amplos céus,
O corpo anônimo e disperso
De Osíris, Deus.
 
O Portugal que se levanta
Do fundo surdo do Destino,
E, como a Grécia, obscuro canta
Baco divino.
 
Aquele inteiro Portugal,
Que, universal perante a Cruz,
Reza, ante à Cruz universal,
Do Deus Jesus.
 

Fernando Pessoa


Reply  Message 5 of 59 on the subject 
From: NOVA ARCÁDIA Sent: 01/12/2009 15:01
 

 

116.gif picture by UNIDOSOSDOIS

 
estrelariadour.gifComo Nuvens pelo Céuestrelariadour.gif

"Como nuvens pelo céu
Passam os sonhos por mim.
Nenhum dos sonhos é meu
Embora eu os sonhe assim.

São coisas no alto que são
Enquanto a vista as conhece,
Depois são sombras que vão
Pelo campo que arrefece.

Símbolos? Sonhos? Quem torna
Meu coração ao que foi?
Que dor de mim me transtorna?
Que coisa inútil me dói?"

 

 

coracaozinhoDourado.gifcoracaozinhoDourado.gifcoracaozinhoDourado.gif
 
Autoria : Fernando Pessoa
Formatação : Marte/JCarvalho
 
voce_bar.gif
 

 

©®.

direitos_autorais.jpg picture by UNIDOSOSDOIS

 

Reply  Message 6 of 59 on the subject 
From: NOVA ARCÁDIA Sent: 01/12/2009 15:01
 

 
   
 
 

   

 

115.gif picture by UNIDOSOSDOIS

 
voce_bar.gif
estrelariadour.gifElegia na Sombraestrelariadour.gif

Lenta, a raça esmorece, e a alegria
É como uma memoria de outrem. Passa
Um vento frio na nossa nostalgia
E a nostalgia torna-se desgraça.

Pesa em nós o passado e o futuro.
Dorme em nós o presente. E a sonhar
A alma encontra sempre o mesmo muro,
E encontra o mesmo muro ao dispertar.

Quem nos roubou a alma? Que bruxedo
De que magia incognita e suprema
Nos enche as almas de dolencia e medo
Nesta hora inutil, apagada e extrema?

Os heroes resplandecem a distancia
Num passado impossivel de se ver
Com os olhos da fé ou os da ancia.
Lembramos nevoa, sombras a esquecer.

Que crime outrora feito, que peccado
Nos impoz esta esteril provação
Que é indistinctamente nosso fado
Como o pressente nosso coração?

Que victoria maligna conseguimos –
Em que guerra, com que armas, com que armada? –
Que assim o seu castigo irreal sentimos
Collado aos ossos desta carne errada?

Terra tam linda com heroes tam grandes,
Bom sol universal localizado
Pelo melhor calor que aqui expandes,
Calor suave e azul só a nós dado –

Tanta belleza dada e gloria ida!
Tanta esperança que, depois da gloria,
Só conheceu que é facil a descida
Das encostas anonymas da historia!

Tanto, tanto! Que é feito de quem foi?
Ninguem volta? Do mundo subterraneo
Onde a sombria luz por nulla doe,
Pesando sobre onde já esteve o craneo,

Não restitue Plutão a sob o ceu
Um heroe ou o animo que o faz,
Como Eurydice dada á dor de Orpheu;
Ou restituiu, e olhámos para traz?

Nada. Nem fé nem lei, nem mar nem porto.
Só a prolixa estagnação das maguas,
Como nas tardes baças, no mar morto,
A dolorosa solidão das aguas.

Povo sem nexo, raça sem supporte,
Que, agitada, indecisa, nem repare
Em que é raça, e que aguarda a propria morte
Como a um comboio expresso que aqui pare.

Torvelinho de duvidas, descrença
Da propria conciencia de se a ter,
Nada ha em nós que, firme e crente, vença
Nossa impossibilidade de querer.

Plagiarios da sombra e do abandono,
Registramos, quietos e vazios,
Os sonhos que ha antes que venha o somno
E o somno inutil que nos deixa frios.

Oh, que ha de ser de nós? Raça que foi
Como que um novo sol occidental
Que houve por typo o aventureiro e o heroe
E outrora teve nome Portugal...

(Falla mais baixo! Deixa a tarde ser
Ao menos uma externa quietação
Que por ser fóra faça menos doer
Nosso descompassado coração.

Falla mais baixo! Somos sem remedio,
Salvo se do ermo abysmo onde Deus dorme
Nos venha dispertar do nosso tedio
Qualquer obscuro sentimento informe.

Silencio quasi! Nada digas! Cala
A esperança vazia em que te acho,
Patria. Que doença de teu ser se exhala?
Tu nem sabes dormir. Falla mais baixo!)

Ó incerta manhã de nevoeiro
Em que o Rei morto vivo tornará
Ao povo ignobil e o fará inteiro –
És qualquer coisa que Deus quer ou dá?

Quando é a tua Hora e o teu Exemplo?
Quando é que vens, do fundo do que é dado,
Cumprir teu rito, reabrir teu Templo
Vendando os olhos lucidos do Fado?

Quando é que sôa, no deserto de alma
Que Portugal é hoje, seu sentir,
Tua voz, como um balouçar de palma
Ao pé do oasis do que possa vir?

Quando é que esta tristeza desconforme
Verá, desfeita a tua cerração,
Surgir um vulto, no nevoeiro informe,
Que nos faça sentir o coração?

Quando? Estagnamos. A melancholia
Das horas successivas que a alma tem
Enche de tedio a noite, e chega o dia
E o tedio augmenta porque o dia vem.

Patria, quem te feriu e envenenou?
Quem, com suave e maligno fingimento
Teu coração supposto socegou
Com abundante e inutil alimento?

Quem fez que durmas mais do que dormias?
Que fez que jazas mais que até aqui?
Aperto as tuas mãos: como estão frias!
Mãe do meu ser que te ama, que é de ti?

Vives, sim, vives porque não morreste...
Mas a vida que vives é um somno
Em que indistinctamente o teu ser veste
Todos os sambenitos do abandono.

Dorme, ao menos, de vez. O Desejado
Talvez não seja mais que um sonho louco
De quem, por muito te ter, Patria, amado,
Acha que todo o amor por ti é pouco.

Dorme, que eu durmo, só de te saber
Presa da inquietação que não tem nome
E nem revolta ou ansia sabe ter
Nem da esperança sente sede ou fome.

Dorme, e a teus pés teus filhos, nós que o somos,
Colheremos, inuteis e cansados
O agasalho do amor que ainda pomos
Em ter teus pés gloriosos por amados.

Dorme, mãe Patria, nulla e postergada,
E, se um sonho de esperança te surgir,
Não creias nelle, porque tudo é nada,
E nunca vem aquillo que ha de vir.

Dorme, que a tarde é finda e a noite vem.
Dorme, que as palpebras do mundo incerto
Baixam solemnes, com a dor que têm,
Sobre o mortiço olhar inda disperto.

Dorme, que tudo cessa, e tu com tudo,
Quererias viver eternamente,
Ficção eterna ante este espaço mudo
Que é um vacuo azul? Dorme, que nada sente,

Nem paira mais no ar, que fora almo
Se não fora a nossa alma erma e vazia,
Que o nosso fado, vento frio e calmo
E a tarde de nós mesmos, calma e fria –

Como - longinquo sopro altivo e humano! –
Essa tarde monotona e serena
Em que, ao morrer, o imperador romano
Disse: Fui tudo, nada vale a pena.

 

 

coracaozinhoDourado.gifcoracaozinhoDourado.gifcoracaozinhoDourado.gif
 
Autoria : Fernando Pessoa
Formatação : Marte/JCarvalho
 

Reply  Message 7 of 59 on the subject 
From: NOVA ARCÁDIA Sent: 01/12/2009 15:06

Dorme enquanto eu velo...
 


Dorme enquanto eu velo...
Deixa-me sonhar...
Nada em mim é risonho.
Quero-te para sonho,
Não para te amar.
A tua carne calma
É fria em meu querer.
Os meus desejos são cansaços.
Nem quero ter nos braços
Meu sonho do teu ser.

Dorme, dorme, dorme,
Vaga em teu sorrir...
Sonho-te tão atento
Que o sonho é encantamento
E eu sonho sem sentir.
 


Fernando Pessoa 

 

Fonte:secrel.com.br



Reply  Message 8 of 59 on the subject 
From: NOVA ARCÁDIA Sent: 01/12/2009 15:08

 

A Novela Inacabada

 

A NOVELA inacabada,
Que o meu sonho completou,
Não era de rei ou fada
Mas era de quem não sou.

Para além do que dizia
Dizia eu quem não era...
A primavera floria
Sem que houvesse primavera.

Lenda do sonho que vivo,
Perdida por a salvar...
Mas quem me arrancou o livro
Que eu quis ter sem acabar?

 

FERNANDO PESSOA


Reply  Message 9 of 59 on the subject 
From: NOVA ARCÁDIA Sent: 01/12/2009 15:09
 
 
paisa021.gif
            

      

Do meio da rua


Do meio da rua
(Que é, aliás, o infinito)
Um pregão flutua,
Música num grito...
Como se no braço 
Me tocasse alguém
Viro-me num espaço
Que o espaço não tem. 

Outrora em criança
O mesmo pregão...
Não lembres... Descansa,
Dorme, coração !...  

   

Fonte:secrel.com.br

   
  
  

Fernando Pessoa
 

Reply  Message 10 of 59 on the subject 
From: NOVA ARCÁDIA Sent: 01/12/2009 15:10

 

 

Ela canta , pobre ceifeira


 
Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,


Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.

 

Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.

Ah, canta, canta sem razão !
O que em mim sente stá pensando.
Derrama no meu coração

 a tua incerta voz ondeando !

Ah, poder ser tu, sendo eu !
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso ! Ó céu !
Ó campo ! Ó canção ! A ciência

Pesa tanto e a vida é tão breve !
Entrai por mim dentro !  Tornai
Minha alma a vossa sombra leve !
Depois, levando-me, passai ! 

 


Fernando Pessoa 

 

.......................................................................................................................................


Reply  Message 11 of 59 on the subject 
From: QUIM TROVADOR Sent: 01/12/2009 16:55
 

 

 

 

QUERO-TE PARA SONHAR     

 

               

Dorme enquanto eu velo...

Deixa-me sonhar...

Nada em mim é risonho.

Quero-te para sonho,

Não para te amar.

 

A tua carne calma

É fria em meu querer.

Os meus desejos são cansaços.

Nem quero ter nos braços

Meu sonho do teu ser.

 

Dorme, dorme. dorme,

Vaga em teu sorrir...

Sonho-te tão atento

Que o sonho é encantamento

E eu sonho sem sentir.

Fernando Pessoa

      


Reply  Message 12 of 59 on the subject 
From: QUIM TROVADOR Sent: 01/12/2009 16:56

91.jpg

 
 
Sino

  

Ó sino da minha aldeia
Dolente na tarde calma
Cada tua badalada
Soa dentro de minhalma
e é tão lento o teu soar
Tão como triste da vida
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida



Por mais que me tanjas perto
Quando passo sempre errante
És para mim como um sonho
Soas-me na alma distante
A cada pancada tua
Vibrante no céu aberto
Sinto mais longe o passado
Sinto a saudade mais perto

Fernando Pessoa


Reply  Message 13 of 59 on the subject 
From: QUIM TROVADOR Sent: 01/12/2009 17:37
 

                             

 


Vendaval

Ó vento do norte, tão fundo e tão frio,
Não achas, soprando por tanta solidão,
Deserto, penhasco, coval mais vazio
Que o meu coração!
Indômita praia, que a raiva do oceano
Faz louco lugar, caverna sem fim,
Não são tão deixados do alegre e do humano
Como a alma que há em mim!
Mas dura planície, praia atra em fereza,
Só têm a tristeza que a gente lhes vê
E nisto que em mim é vácuo e tristeza
É o visto o que vê.
Ah, mágoa de ter consciência da vida!
Tu, vento do norte, teimoso, iracundo,
Que rasgas os robles - teu pulso divida
Minhalma do mundo!
Ah, se, como levas as folhas e a areia,
A alma que tenho pudesses levar -
Fosse pronde fosse, pra longe da idéia
De eu ter que pensar!
Abismo da noite, da chuva, do vento,
Mar torvo do caos que parece volver -
Porque é que não entras no meu pensamento
Para ele morrer?
Horror de ser sempre com vida a consciência!
Horror de sentir a alma sempre a pensar!
Arranca-me, é vento; do chão da existência,
De ser um lugar!
E, pela alta noite que fazes maisscura,
Pelo caos furioso que crias no mundo,
Dissolve em areia esta minha amargura,
Meu tédio profundo.
E contra as vidraças dos que há que têm lares,
Telhados daqueles que têm razão,
Atira, já pária desfeito dos ares,
O meu coração!
Meu coração triste, meu coração ermo,
Tornado a substncia dispersa e negada
Do vento sem forma, da noite sem termo,
Do abismo e do nada!

Fernando Pessoa  


 


Reply  Message 14 of 59 on the subject 
From: QUIM TROVADOR Sent: 01/12/2009 17:39
 
 
 
 
As Flores

Se às vezes digo
Que as flores sorriem,
E também digo
Que os rios cantam,
Não é porque eu julgue
Que há sorriso nas flores
E cantos no correr dos rios…
É porque assim faço
Mais sentir aos homens falsos,
A existência verdadeiramente real
Das flores e dos rios…

Fernando Pessoa

 
 
By BéBé


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