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General: Anarquia na Amazônia
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جواب  رسائل 1 من 2 في الفقرة 
من: RudolfRocker1  (الرسالة الأصلية) مبعوث: 08/09/2006 09:02

Anarquia na Amaz척nia



Folha de S. Paulo - domingo, 03 de setembro de 2006

 



A viagem iniciática 

 

Convivendo com os jivaros entre 1976 e 1978, o antropólogo franc챗s
Philippe Descola buscou desvendar o enigma de um povo irreligioso,
individualista e anarquista, mas sem pátria nem Estado


JACQUES MEUNIER
 
Estava faltando um livro digno de crédito, um livro de ci챗ncia, de
paci챗ncia e de empatia sobre os índios jivaros. Está aqui. E a dificuldade n찾o
era pequena, pois os jivaros prezam ao extremo sua
independ챗ncia.
Disseminados pela alta Amazônia, no Piemonte andino,
deslocando-se a cavalo na fronteira do Equador e do Peru, mantêm entre eles
relações tão complexas quanto móveis, turbulentas e incessantes -algo que, na
ausência de dados teóricos, por muito tempo os manteve à distância de qualquer
compreensão extrínseca.
O belicismo, as "cabe챌as encolhidas", a zarabatana e
o curare durante muito tempo garantiram a má reputa챌찾o dos jivaros. Sua
irreligiosidade, sua desenvoltura sexual (eles s찾o polígamos) e sua anarquia
social escandalizaram os primeiros missionários.
Em 1889, o abade
Fran챌ois-Pierre escreveu: "A família jivaro é um lupanar no qual a devassid찾o
mais desavergonhada é exposta sem restri챌천es nem pudor", e, em 1895, o padre
Vacas Galindo os descreveu como "materialistas", "sensualistas" e "positivistas
extremos".
Aqui, como em outras paragens, o olhar colonial transforma
qualidades em defeitos.
As civiliza챌천es orais s찾o analfabetas, os homens que
andam de pés nus se transformam em miseráveis vagabundos, os n찾o-crentes s찾o
tachados de ateus, e mesmo seu saber em matéria de taxidermia e prepara챌천es
químicas (drogas e venenos) é desqualificado, pois os cronistas n찾o enxergavam
neles mais que práticas ocultas, perversos desvios da ci챗ncia.
N찾o
mencionemos o nonsense histórico que representa seu sistema social, o grau zero
de integra챌찾o. Sim, os jivaros desafiam as leis fundamentais da sociologia:
individualistas sem pátria, anarquistas sem Estado, autarquistas espont창neos que
t챗m a guerra por nervo social, eles souberam tornar viável o invivível "estado
de natureza" de Thomas Hobbes.
Philippe Descola conhece o paradoxo jivaro
pessoal e profundamente. Ele parte para o terreno jivaro com a bagagem do
acad챗mico formado na Escola Normal [em Paris] e o olhar agu챌ado do
estruturalista. Ele vai pesquisar na regi찾o do rio Pastaza, no Equador, durante
mais de dois anos e meio.
O grupo achuar, o "povo das palmeiras", distribuído
em grupos familiares distantes e aut척nomos, forma uma tribo molecular de cerca
de 4.500 indivíduos, mas, devido aos conflitos de fronteira, o etnólogo só irá
abordar aqueles que vivem na parte
equatoriana.

Insubmissos
Como os xuares, os aguarunas e os
huambisas, os achuares s찾o jivaros. Falam um dialeto que os liga aos outros e,
pelo estilo de vida, o gosto pelas vendetas e o senso da dívida (sem falar em
sua obstina챌찾o em viver nos moldes de seus antepassados), formam o derradeiro
basti찾o dos insubmissos.
Em "As Lan챌as do Crepúsculo", Descola lhes rende uma
homenagem fundamentada ao mesmo tempo em que declara -com a emo챌찾o controlada de
um Lévi-Strauss- a parte subjetiva de seu empreendimento.
"A Amazônia
desconcerta os engenheiros da mecânica social e os temperamentos messiânicos;
ela é o terreno predileto dos misantropos razoáveis que amam, no isolamento dos
índios, o eco de sua própria solidão, que são ardentes em defesa dela quando
vêem ameaçadas sua sobrevivência, sua cultura e sua independência, não para
conduzi-los a um destino melhor, mas porque rejeitam ver imposta a outros a
grande lei comum à qual eles próprios sempre tentaram se esquivar."
Em "As
Lan챌as do Crepúsculo", Descola adota o tom da cr척nica para melhor oferecer uma
aula de etnologia. Procedendo por quadros, sob a desculpa de narrar a vida
cotidiana, mostra como a teoria se articula com o vivido. Cada recorda챌찾o evoca
um tema, e cada tema uma reflex찾o ou o ponto de partida de uma tese
inédita.
Essa maneira de proceder, que pode parecer sistemática, possui a
vantagem de mostrar o eterno trabalho de aprendiz do etnólogo, a forma챌찾o de sua
sensibilidade e de sua autoridade, sem jamais perder de vista os fatos e os
gestos daqueles que ele estuda.
Assim, a primeira qualidade deste livro é sua
sutileza. Descola nunca se deixa cair em clich챗s nem na teoria pronta. Possui o
dom de farejar o sentido onde existem apenas fatos.
Se bem que s찾o os
achuares que, em última análise, v찾o lhe emprestar sua lógica e, além do caráter
de cada um, das histórias e das anedotas privadas, lhe permitir찾o apreender um
perfil social, uma personalidade -em suma, os mil caminhos pelos quais se
interiorizam as regras difusas da comunidade.
A comunidade? Apesar de sua
propensão à discórdia e à atomização, os achuares são ligados a ela pela língua,
pelo sistema de parentesco, pela troca de bens, pelas técnicas de caça e de
pesca, por sua maneira de viver o tempo em vários registros, por sua crença em
espíritos malignos, por seu consumo da droga ayahuasca e até mesmo, na
adversidade, pela violência ritualizada.
Apesar de seu voto de objetividade,
Descola toma partido, e "As Lan챌as do Crepúsculo", ao narrar uma ca챌ada a porcos
selvagens ou recolher os relatos de sonhos e de c창nticos votivos, nos apresenta
uma verdadeira "defesa e ilustra챌찾o" do pensamento selvagem.
Descola fala a
língua dos achuares. Isso lhe permite atenuar o caráter aproximado das
informa챌천es que recebe e evitar as fantasias -os fantasmas- do intérprete. Ele
recorta e reconstrói o que é dito, para recolocá-lo em cena numa récita
cursiva.
A vantagem dessa abordagem é que os mitos, por exemplo, n찾o s찾o
"biblificados" ou "vitrificados" na página do livro e que os índios que os
relatam n찾o s찾o seres genéricos, mas pessoas que vivem numa dada situa챌찾o, que
t챗m um nome e que habitam sua palavra.

Parte da paisagem
De
passagem, Descola aproveita para dizer que a etnologia n찾o é "um acúmulo
empírico de conhecimentos" nem "uma estética do relativismo" nem tampouco "uma
hermen챗utica das culturas" e que ela nos ensina a amar a humanidade "sob seus
outros rostos".
Sem cair no viés autocentrado da "etnologia de si mesmo",
Descola n찾o esquece que faz parte da paisagem que descreve: ele se observa
observando.
Com mais de 500 páginas, dividido em 24 capítulos, com um
prólogo, um epílogo e um post scriptum, "As Lanças do Crepúsculo" apresenta um
inventário quase completo da vida jivaro. O etnólogo toma o tempo necessário
para nos apresentar seus amigos, nos conduz às roças e à taxonomia das plantas
cultivadas, nos faz assistir diretamente à fabricação de uma zarabatana ou
participar de uma pescaria.
As doen챌as, as trocas, o xamanismo e a morte s찾o
evocados com o mínimo de dist창ncia que caracteriza o profissional e o discreto
senso de teatralidade que qualifica o escritor.
A ca챌a, o bestiário amaz척nico
e até mesmo o status dos c찾es domésticos: nada é esquecido no livro. Descola
compartilha com os jivaros -que disp천em de 42 nomes diferentes para designar as
formigas e distinguem 33 espécies diferentes de borboletas- a paix찾o insaciável
pela zoologia. Podemos imaginar que isso lhe deve ter valido um pouco de estima
e muita amizade nessa regi찾o.
Nada escapa do olhar do "jivarólogo". Ele
observa, por exemplo, que o pirilampo ganha o nome de "yaa", como as estrelas.
Ele faz o inventário dos diferentes tipos de discurso e de elocu챌찾o, que, na
conversa ritual, exercem o mesmo papel que o bemol ou o sustenido nas partituras
musicais.
Apoiando-se nos estudos de sua companheira, Anne Christine Taylor,
ele propõe uma teoria nova para explicar as "cabeças encolhidas" e faz uma
descrição quase pontilhista das mulheres. Também lhe acontece de praticar uma
espécie de humor discreto, à maneira dos ingleses.
Para explicar a brevidade
das relações sexuais entre os jivaros, escreve: "É verdade que, com a alta
concentração de insetos desagradáveis e de plantas hostis, a natureza nessas
latitudes não incita ao prolongamento exagerado do amor ao ar livre". Mais
adiante, falando do tédio e das civilizações lentas, do tempo ampliado, ele
arrisca uma hipótese, sem, entretanto, atribuir crédito demasiado a ela: "Os
índios parecem sofrer de tédio tanto quanto nós sofremos -um pouco menos,
talvez, graças à diversão que lhes proporcionamos-, e me pergunto se as vendetas
que pontilham suas vidas não são, para eles, um modo de, de quando em quando,
escapar do cinza do cotidiano". É verdade que essas são duas anotações
furtivas.
Hoje os achuares abandonaram a lança e o escudo -eles possuem
fuzis. Muitos deles aderiram à Federação dos Centros Xuares do Equador,
organização indígena muito influente no país, e rejeitam o etnônimo "jivaro",
termo que é visto como colonial e racista.

O fuzil, tabu para a
ca챌a

Isso n찾o impede sua "jivaridade" de se expressar.
Prova disso é o
fato de que o fuzil, a nova arma de caça e de guerra, torna-se "tabu" para a
caça se já matou um homem na guerra. Ele poderia poluir a presa. É preciso
livrar-se dele a qualquer preço, trocando-o com alguém da periferia que não
tenha tomado conhecimento do conflito.
O etnólogo conta muitas histórias nas
entrelinhas, como o costume cotidiano do v척mito, a escolha de um "amik" (o amigo
cerimonial), o "vampirismo" da mandioca ou o canto dos xam찾s, todos momentos
raros de etnologia narrativa.
O próprio título, "As Lan챌as do Crepúsculo",
mostra que o autor assimilou bem a filosofia antin척mica dos jivaros. De um lado,
revela a descontinuidade dos dias e a continuidade do tempo, fala do pavor de
ver os inimigos mortos retornarem para se vingar; mas também, com a cumplicidade
do autor, faz o voto piedoso da sobreviv챗ncia e a apologia da esquiva.





Este texto saiu no "Le Monde".
Tradu챌찾o de Clara
Allain
.






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جواب  رسائل 2 من 2 في الفقرة 
من: RudolfRocker1 مبعوث: 08/09/2006 14:39

: Anarquia na Amaz척nia



Folha de S. Paulo - domingo, 03 de setembro de 2006

 



A viagem iniciática 

 

Convivendo com os jivaros entre 1976 e 1978, o antropólogo franc챗s
Philippe Descola buscou desvendar o enigma de um povo irreligioso,
individualista e anarquista, mas sem pátria nem Estado


JACQUES MEUNIER
 
Estava faltando um livro digno de crédito, um livro de ci챗ncia, de
paci챗ncia e de empatia sobre os índios jivaros. Está aqui. E a dificuldade n찾o
era pequena, pois os jivaros prezam ao extremo sua
independ챗ncia.
Disseminados pela alta Amazônia, no Piemonte andino,
deslocando-se a cavalo na fronteira do Equador e do Peru, mantêm entre eles
relações tão complexas quanto móveis, turbulentas e incessantes -algo que, na
ausência de dados teóricos, por muito tempo os manteve à distância de qualquer
compreensão extrínseca.
O belicismo, as "cabe챌as encolhidas", a zarabatana e
o curare durante muito tempo garantiram a má reputa챌찾o dos jivaros. Sua
irreligiosidade, sua desenvoltura sexual (eles s찾o polígamos) e sua anarquia
social escandalizaram os primeiros missionários.
Em 1889, o abade
Fran챌ois-Pierre escreveu: "A família jivaro é um lupanar no qual a devassid찾o
mais desavergonhada é exposta sem restri챌천es nem pudor", e, em 1895, o padre
Vacas Galindo os descreveu como "materialistas", "sensualistas" e "positivistas
extremos".
Aqui, como em outras paragens, o olhar colonial transforma
qualidades em defeitos.
As civiliza챌천es orais s찾o analfabetas, os homens que
andam de pés nus se transformam em miseráveis vagabundos, os n찾o-crentes s찾o
tachados de ateus, e mesmo seu saber em matéria de taxidermia e prepara챌천es
químicas (drogas e venenos) é desqualificado, pois os cronistas n찾o enxergavam
neles mais que práticas ocultas, perversos desvios da ci챗ncia.
N찾o
mencionemos o nonsense histórico que representa seu sistema social, o grau zero
de integra챌찾o. Sim, os jivaros desafiam as leis fundamentais da sociologia:
individualistas sem pátria, anarquistas sem Estado, autarquistas espont창neos que
t챗m a guerra por nervo social, eles souberam tornar viável o invivível "estado
de natureza" de Thomas Hobbes.
Philippe Descola conhece o paradoxo jivaro
pessoal e profundamente. Ele parte para o terreno jivaro com a bagagem do
acad챗mico formado na Escola Normal [em Paris] e o olhar agu챌ado do
estruturalista. Ele vai pesquisar na regi찾o do rio Pastaza, no Equador, durante
mais de dois anos e meio.
O grupo achuar, o "povo das palmeiras", distribuído
em grupos familiares distantes e aut척nomos, forma uma tribo molecular de cerca
de 4.500 indivíduos, mas, devido aos conflitos de fronteira, o etnólogo só irá
abordar aqueles que vivem na parte
equatoriana.

Insubmissos
Como os xuares, os aguarunas e os
huambisas, os achuares s찾o jivaros. Falam um dialeto que os liga aos outros e,
pelo estilo de vida, o gosto pelas vendetas e o senso da dívida (sem falar em
sua obstina챌찾o em viver nos moldes de seus antepassados), formam o derradeiro
basti찾o dos insubmissos.
Em "As Lan챌as do Crepúsculo", Descola lhes rende uma
homenagem fundamentada ao mesmo tempo em que declara -com a emo챌찾o controlada de
um Lévi-Strauss- a parte subjetiva de seu empreendimento.
"A Amazônia
desconcerta os engenheiros da mecânica social e os temperamentos messiânicos;
ela é o terreno predileto dos misantropos razoáveis que amam, no isolamento dos
índios, o eco de sua própria solidão, que são ardentes em defesa dela quando
vêem ameaçadas sua sobrevivência, sua cultura e sua independência, não para
conduzi-los a um destino melhor, mas porque rejeitam ver imposta a outros a
grande lei comum à qual eles próprios sempre tentaram se esquivar."
Em "As
Lan챌as do Crepúsculo", Descola adota o tom da cr척nica para melhor oferecer uma
aula de etnologia. Procedendo por quadros, sob a desculpa de narrar a vida
cotidiana, mostra como a teoria se articula com o vivido. Cada recorda챌찾o evoca
um tema, e cada tema uma reflex찾o ou o ponto de partida de uma tese
inédita.
Essa maneira de proceder, que pode parecer sistemática, possui a
vantagem de mostrar o eterno trabalho de aprendiz do etnólogo, a forma챌찾o de sua
sensibilidade e de sua autoridade, sem jamais perder de vista os fatos e os
gestos daqueles que ele estuda.
Assim, a primeira qualidade deste livro é sua
sutileza. Descola nunca se deixa cair em clich챗s nem na teoria pronta. Possui o
dom de farejar o sentido onde existem apenas fatos.
Se bem que s찾o os
achuares que, em última análise, v찾o lhe emprestar sua lógica e, além do caráter
de cada um, das histórias e das anedotas privadas, lhe permitir찾o apreender um
perfil social, uma personalidade -em suma, os mil caminhos pelos quais se
interiorizam as regras difusas da comunidade.
A comunidade? Apesar de sua
propensão à discórdia e à atomização, os achuares são ligados a ela pela língua,
pelo sistema de parentesco, pela troca de bens, pelas técnicas de caça e de
pesca, por sua maneira de viver o tempo em vários registros, por sua crença em
espíritos malignos, por seu consumo da droga ayahuasca e até mesmo, na
adversidade, pela violência ritualizada.
Apesar de seu voto de objetividade,
Descola toma partido, e "As Lan챌as do Crepúsculo", ao narrar uma ca챌ada a porcos
selvagens ou recolher os relatos de sonhos e de c창nticos votivos, nos apresenta
uma verdadeira "defesa e ilustra챌찾o" do pensamento selvagem.
Descola fala a
língua dos achuares. Isso lhe permite atenuar o caráter aproximado das
informa챌천es que recebe e evitar as fantasias -os fantasmas- do intérprete. Ele
recorta e reconstrói o que é dito, para recolocá-lo em cena numa récita
cursiva.
A vantagem dessa abordagem é que os mitos, por exemplo, n찾o s찾o
"biblificados" ou "vitrificados" na página do livro e que os índios que os
relatam n찾o s찾o seres genéricos, mas pessoas que vivem numa dada situa챌찾o, que
t챗m um nome e que habitam sua palavra.

Parte da paisagem
De
passagem, Descola aproveita para dizer que a etnologia n찾o é "um acúmulo
empírico de conhecimentos" nem "uma estética do relativismo" nem tampouco "uma
hermen챗utica das culturas" e que ela nos ensina a amar a humanidade "sob seus
outros rostos".
Sem cair no viés autocentrado da "etnologia de si mesmo",
Descola n찾o esquece que faz parte da paisagem que descreve: ele se observa
observando.
Com mais de 500 páginas, dividido em 24 capítulos, com um
prólogo, um epílogo e um post scriptum, "As Lanças do Crepúsculo" apresenta um
inventário quase completo da vida jivaro. O etnólogo toma o tempo necessário
para nos apresentar seus amigos, nos conduz às roças e à taxonomia das plantas
cultivadas, nos faz assistir diretamente à fabricação de uma zarabatana ou
participar de uma pescaria.
As doen챌as, as trocas, o xamanismo e a morte s찾o
evocados com o mínimo de dist창ncia que caracteriza o profissional e o discreto
senso de teatralidade que qualifica o escritor.
A ca챌a, o bestiário amaz척nico
e até mesmo o status dos c찾es domésticos: nada é esquecido no livro. Descola
compartilha com os jivaros -que disp천em de 42 nomes diferentes para designar as
formigas e distinguem 33 espécies diferentes de borboletas- a paix찾o insaciável
pela zoologia. Podemos imaginar que isso lhe deve ter valido um pouco de estima
e muita amizade nessa regi찾o.
Nada escapa do olhar do "jivarólogo". Ele
observa, por exemplo, que o pirilampo ganha o nome de "yaa", como as estrelas.
Ele faz o inventário dos diferentes tipos de discurso e de elocu챌찾o, que, na
conversa ritual, exercem o mesmo papel que o bemol ou o sustenido nas partituras
musicais.
Apoiando-se nos estudos de sua companheira, Anne Christine Taylor,
ele propõe uma teoria nova para explicar as "cabeças encolhidas" e faz uma
descrição quase pontilhista das mulheres. Também lhe acontece de praticar uma
espécie de humor discreto, à maneira dos ingleses.
Para explicar a brevidade
das relações sexuais entre os jivaros, escreve: "É verdade que, com a alta
concentração de insetos desagradáveis e de plantas hostis, a natureza nessas
latitudes não incita ao prolongamento exagerado do amor ao ar livre". Mais
adiante, falando do tédio e das civilizações lentas, do tempo ampliado, ele
arrisca uma hipótese, sem, entretanto, atribuir crédito demasiado a ela: "Os
índios parecem sofrer de tédio tanto quanto nós sofremos -um pouco menos,
talvez, graças à diversão que lhes proporcionamos-, e me pergunto se as vendetas
que pontilham suas vidas não são, para eles, um modo de, de quando em quando,
escapar do cinza do cotidiano". É verdade que essas são duas anotações
furtivas.
Hoje os achuares abandonaram a lança e o escudo -eles possuem
fuzis. Muitos deles aderiram à Federação dos Centros Xuares do Equador,
organização indígena muito influente no país, e rejeitam o etnônimo "jivaro",
termo que é visto como colonial e racista.

O fuzil, tabu para a
ca챌a

Isso n찾o impede sua "jivaridade" de se expressar.
Prova disso é o
fato de que o fuzil, a nova arma de caça e de guerra, torna-se "tabu" para a
caça se já matou um homem na guerra. Ele poderia poluir a presa. É preciso
livrar-se dele a qualquer preço, trocando-o com alguém da periferia que não
tenha tomado conhecimento do conflito.
O etnólogo conta muitas histórias nas
entrelinhas, como o costume cotidiano do v척mito, a escolha de um "amik" (o amigo
cerimonial), o "vampirismo" da mandioca ou o canto dos xam찾s, todos momentos
raros de etnologia narrativa.
O próprio título, "As Lan챌as do Crepúsculo",
mostra que o autor assimilou bem a filosofia antin척mica dos jivaros. De um lado,
revela a descontinuidade dos dias e a continuidade do tempo, fala do pavor de
ver os inimigos mortos retornarem para se vingar; mas também, com a cumplicidade
do autor, faz o voto piedoso da sobreviv챗ncia e a apologia da esquiva.





Este texto saiu no "Le Monde".
Tradu챌찾o de Clara
Allain
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