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Reply  Message 1 of 10 on the subject 
From: QUIM TROVADOR  (Original message) Sent: 29/11/2009 18:13
 

Poesia matuta

Helvia Callou

Minino você não sabe
O que está me acontecendo
Minha fama de poeta
Pouco a pouco vai crescendo
Pois me botaram num site
Agora a turma sosaite
Vê o que tô escrevendo
E para os meus conterranios
Que não conhece o artigo
Não tem problema nenhum
Presti atenção no que eu digo!
O site é um desses pograma
Que ajuda a gente a ter fama
E distribuir com os amigo."

Homenagem da cordelista "Hélvia Callou" ao CORDEL CAMPINA
********************************



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Reply  Message 2 of 10 on the subject 
From: QUIM TROVADOR Sent: 29/11/2009 18:14
 
CABRA DA PESTE

Silva Filho



Com certeza faz sentido
Um mote bem nordestino
Debaixo do sol a pino
Um sorriso extrovertido;
Com o respeito devido
Um mote assim me convém
Nordeste aqui também tem
E vá guardando na mente
Onde tem cabra valente
Tem nordestino também.

O Brasil fez o Nordeste
E o Nordeste faz cultura
Um povo que tem bravura
Com o seu Cabra da Peste;
Se há fortunas no Leste
Aqui tem mais que xerém
Fique lá com seu vintém
Que eu vou ser convincente
Onde tem cabra valente
Tem nordestino também.

Um pedaço de Brasil
Que tem um povo sofrido
Com deboches ofendido
Por quem tem a mente vil;
Sem ter água no cantil
Vai passando por refém
Mas não deixa seu sedém
Em poltrona deprimente
Onde tem cabra valente
Tem nordestino também.

Se falta água no pote
Sobra coração fraterno
Pois mesmo sem ter inverno
Nasce a rima de um mote;
Vem o arroz com capote
Que vai fazer muito bem
Sem comprar no Armazém
Porque plantou a semente
Onde tem cabra valente
Tem nordestino também.

Eu defendo essa bandeira
Em respeito ao Nordeste
Ainda que só me reste
Um barraco sem soleira;
Mas há gente altaneira
Que não fica tão aquém
Do que muita gente tem
E do que um rico sente
Onde tem cabra valente
Tem nordestino também.
 

Reply  Message 3 of 10 on the subject 
From: QUIM TROVADOR Sent: 29/11/2009 18:15

Ilustra� de Marcos Jardim

NEGRINHO DO PASTOREIO

No Estado do Rio Grande,
Da região sul do Brasil,
Triste fato aconteceu
Sob o céu cor de anil
Com um negrinho escravo,
Cuja sorte foi tão vil.

No tempo da escravidão,
Todo um povo se dobrava
Para servir ao Senhor
Que nunca se contentava
E tirava até o sangue
De uma gente tão brava.

Bandeira verde-amarelo,
Azul-branca, não ostenta
O negro da noite escura,
Nem o vermelho apresenta,
Por ser este a cor do sangue
De uma raça opulenta.

Tantas mães perderam filhos
E quantos filhos sem pai,
Separados dos irmãos,
Ninguém lhes ouvia um ai;
Hoje temos um consolo:
Esse tempo longe vai.

Só que a história registra
Casos dos mais escabrosos,
De pobres negros sofrendo
Nas mãos de patrões maldosos,
Tanto que lhes conto um caso,
Tendo meus olhos chorosos.

No Rio Grande do Sul,
Estado deste Brasil,
Hoje ainda é lembrado
Debaixo do céu de anil:
Negrinho do Pastoreio,
Teve ele um destino vil.

O filho do estancieiro
Do seu próprio pai roubou
O potro mais valioso
E uma venda simulou:
O cavalo puro sangue
A um guapo entregou.

Ao pai, o malvado filho,
Denunciou o pastoureiro*
Que por desleixo teria
Descuidado do potreiro,
Por isso alguém roubara
O pingo lá do celeiro.

Seu senhor não duvidou
Da estória do filhinho,
E aos peões ordenou
Surrar o pobre Negrinho,
Mandando-o campo afora
à procura do potrinho.

Noite e dia ele vagou
Sob o frio do Minuano
E não encontrando o potro
Aquele Senhor Tirano
Deu-lhe um novo castigo,
Mais cruel e desumano.

Com o seu corpo untado
Pelo adocicado mel,
Preso sobre um formigueiro,
Padeceu a dor cruel,
E coberto de formigas
Dormiu e acordou no céu.

Eu que sou também escravo
Do meu próprio coração,
Comparo-me ao Negrinho,
Que viveu na escravidão
E apanhava todo dia
Por ordem de seu patrão.

Estou sendo açoitado,
Como foi o bom Negrinho,
Dei amor e recebi
Traição no meu caminho,
Se Ele procura o potro,
Eu só busco um carinho.

Igual ao Negrinho escravo,
Eu trago aprisionado
No peito meu coração,
Que bate acelerado
Pelo amor de uma bela,
Por quem eu fui cativado.

Em busca do amor eu vou,
Sem descanso, noite e dia,
E se não o encontrar
Não terei mais alegria,
Mas ao Negrinho eu peço
Socorro nesta agonia.

Ele não achou o potro,
Por isso perdeu a vida,
Como não quero morrer,
Espero a mulher querida
Que venha cicatrizar
No meu peito a ferida.

Entre linhas eu contei
A vocês uma história
Do meu protetor Negrinho,
Que hoje vive na glória
E haverá de estar comigo
Numa nova trajetória.

Enquanto o gaúcho quer
à boiada reunido
O boi que arribou no campo,
Abro o coração ferido,
E que nova flor ocupe
O lugar do amor perdido.

Negrinho do Pastoreio
Foi mártir da crueldade,
Injustiçado morreu
Sem ter a felicidade
De achar o belo potro
Que se escondeu na maldade.

Num adeus de esperança,
Eu agradeço agora,
Primeiramente a Deus,
Depois a Nossa Senhora,
Em seguida ao Negrinho
Que do mundo foi embora.

Quero que ele me traga
O amor que eu perdi,
Pois que de mim foi roubado
No dia que mais sofri;
Obrigado, bom Negrinho,
Ela está vindo ali...


*Variante em função da rima.

BENEDITO GENEROSO DA COSTA
 
*********************************************************

Reply  Message 4 of 10 on the subject 
From: QUIM TROVADOR Sent: 29/11/2009 18:15
POESIA  DE  CORDEL  - 2
 

Nota : A Poesia de cordel - para além de outras características, tem a de ser escrita com os termos próprios desse rincão

Brasileiro, motivo pelo qual - na maioria das vezes tem "erros" gramaticais, mas ela é assim mesmo ; Genuinamente popular..   

 

Manuel Xudu é o Guia dos Cordéis...

    

A bênça Manoel Chudu

 

O meu cordel estradeiro 

Vem lhe pedir permissão 

Pra se tornar verdadeiro 

Pra se tornar mensageiro 

Da força do teu trovão 

E as asas da tanajura 

Fazer voar o sertão 

Meu moxotó coroado 

De xiquexique e facheiro 

Onde a cascavel cochila 

Na boca do cangaceiro

Eu também sou cangaceiro 

E o meu cordel estradeiro 

É cascavel poderosa 

É chuva que cai maneira 

Aguando a terra quente 

Erguendo um véu de poeira 

Deixando a tarde cheirosa 

É planta que cobre o chão 

Na primeira trovoada 

A noite que desce fria 

Depois da tarde molhada 

É seca desesperada 

Rasgando o bucho do chão 

É inverno e é verão 

É canção de lavadeira 

Peixeira de Lampião 

As luzes do vaga-lume 

Alpendre de casarão 

A cuia do velho cego 

Terreiro de amarração 

O ramo da rezadeira 

O banzo de fim de feira 

Janela de caminhão 

Vocês que estão no palácio 

Venham ouvir meu pobre pinho 

Não tem o cheiro do vinho 

Das frutas frescas do Lácio 

Mas tem a cor de Inácio 

Da serra da Catingueira 

Um cantador de primeira 

Que nunca foi numa escola 

Pois meu verso é feito a foice 

Do cassaco cortar cana 

Sendo de cima pra baixo 

Tanto corta como espana 

Sendo de baixo pra cima 

Avoa do cabo e se engana

     

 (Fernando  Navajo)


Reply  Message 5 of 10 on the subject 
From: QUIM TROVADOR Sent: 30/11/2009 14:20

 
CABRA DA PESTE

Silva Filho



Com certeza faz sentido
Um mote bem nordestino
Debaixo do sol a pino
Um sorriso extrovertido;
Com o respeito devido
Um mote assim me convém
Nordeste aqui também tem
E vá guardando na mente
Onde tem cabra valente
Tem nordestino também.

O Brasil fez o Nordeste
E o Nordeste faz cultura
Um povo que tem bravura
Com o seu Cabra da Peste;
Se há fortunas no Leste
Aqui tem mais que xerém
Fique lá com seu vintém
Que eu vou ser convincente
Onde tem cabra valente
Tem nordestino também.

Um pedaço de Brasil
Que tem um povo sofrido
Com deboches ofendido
Por quem tem a mente vil;
Sem ter água no cantil
Vai passando por refém
Mas não deixa seu sedém
Em poltrona deprimente
Onde tem cabra valente
Tem nordestino também.

Se falta água no pote
Sobra coração fraterno
Pois mesmo sem ter inverno
Nasce a rima de um mote;
Vem o arroz com capote
Que vai fazer muito bem
Sem comprar no Armazém
Porque plantou a semente
Onde tem cabra valente
Tem nordestino também.

Eu defendo essa bandeira
Em respeito ao Nordeste
Ainda que só me reste
Um barraco sem soleira;
Mas há gente altaneira
Que não fica tão aquém
Do que muita gente tem
E do que um rico sente
Onde tem cabra valente
Tem nordestino também.
 

Reply  Message 6 of 10 on the subject 
From: QUIM TROVADOR Sent: 30/11/2009 14:23
POESIA  DE  CORDEL  - 2
 

Nota : A Poesia de cordel - para além de outras características, tem a de ser escrita com os termos próprios desse rincão

Brasileiro, motivo pelo qual - na maioria das vezes tem "erros" gramaticais, mas ela é assim mesmo ; Genuinamente popular..   

 

Manuel Xudu é o Guia dos Cordéis...

    

A bênça Manoel Chudu

 

O meu cordel estradeiro 

Vem lhe pedir permissão 

Pra se tornar verdadeiro 

Pra se tornar mensageiro 

Da força do teu trovão 

E as asas da tanajura 

Fazer voar o sertão 

Meu moxotó coroado 

De xiquexique e facheiro 

Onde a cascavel cochila 

Na boca do cangaceiro

Eu também sou cangaceiro 

E o meu cordel estradeiro 

É cascavel poderosa 

É chuva que cai maneira 

Aguando a terra quente 

Erguendo um véu de poeira 

Deixando a tarde cheirosa 

É planta que cobre o chão 

Na primeira trovoada 

A noite que desce fria 

Depois da tarde molhada 

É seca desesperada 

Rasgando o bucho do chão 

É inverno e é verão 

É canção de lavadeira 

Peixeira de Lampião 

As luzes do vaga-lume 

Alpendre de casarão 

A cuia do velho cego 

Terreiro de amarração 

O ramo da rezadeira 

O banzo de fim de feira 

Janela de caminhão 

Vocês que estão no palácio 

Venham ouvir meu pobre pinho 

Não tem o cheiro do vinho 

Das frutas frescas do Lácio 

Mas tem a cor de Inácio 

Da serra da Catingueira 

Um cantador de primeira 

Que nunca foi numa escola 

Pois meu verso é feito a foice 

Do cassaco cortar cana 

Sendo de cima pra baixo 

Tanto corta como espana 

Sendo de baixo pra cima 

Avoa do cabo e se engana

     

 (Fernando  Navajo)


Reply  Message 7 of 10 on the subject 
From: QUIM TROVADOR Sent: 30/11/2009 14:24
Jeca Tatu

Catulo da Paixão Cearense

Não teje vancê jurgando
Que eu seje argum canguçu
Não sou não, seo conseiêro
Sou caboclo... sou violeiro...
E vivo naquelas mata
Cumo veve um sanhaçu
Vanssuncê já me cunhece
Eu sou o Jeca Tatu
Peguiçoso? Madracero?
Não sinhô, seo senadô
Não sinhô, seo conseiêro
É pruque vancê num sabe
O que seje um boiadero
Criá com tanto cuidado
Com tanto amô e aligria
Umas cabeça de gado
E despois, a ipidimia
Carregá tudo com os diabo
Em meno de quatro dia...
É pruque vancê num sabe
O trabaio desgraçado
Que um homi tem, seo dotô
Pra incoivará um roçado
E quando o ouro do mio
Vai ficando imbonecado
Pra gente intonce coiê
O mio morre de sede
Pulo só estorricado
Sequinho cumo vancê
É pruque vancê num sabe
Quanto é duro um pai sofrê
Vendo seo fio crescendo
Dizendo sempre: papai,
Vem me ensiná o A-B-C
Preguiçoso? Madracero?
Não sinhô, seo conseiêro...
Vancê não sabe de nada
Vancê não sabe a corage
Que é preciso um homi tê
Pra corrê nas vaquejada
Vossa incelença não sabe
O valô de um sertanejo
Acerando uma queimada
Vancê tem um casarão
Tem um jardim, uma chácra
Tem criado de casaca
E ganha tudos os dia
Qué chova, qué faça sór
Só pra falá, contos de ré
Eu trabaio o ano inteiro
Somente quando Deus qué
Eu vivo do meu roçado
Me estarfando como um burro
Pra sustentá oito fio
Minha mãe e minha muié
Eu drumo im riba de um couro
Numa casa de sapé
Vancê tem seu artomóve
Eu, pra vim no povoado
Ando déis légua a pé
Neste mês amarfadado
Pru via de num chovê
Via a roça do feijão
Cum farta dágua morrê
O sór teve tão ardente
Lá pras banda do sertão
Que meno de quinze dia
Perdi toda criação...
Na semana retrasada
O vento, tanto ventô
Que a páia que cobre a choça
Foi pulos mato, avuô
Minha muié tá morrendo
Só pri farta de mpezinha
E pru farta de um dotô
Preguiçoso? Madracero?
Não sinhô, seo conseiêro
De lei, lezes, eu num sei nada
Meu palaço é de sapé
Quem dá lezes pra famía
É minha boa muié
Eu sou fromado oito vêis
Eu sou também conseiêro
Pruque tenho oito fiínho
E quem dá lezes pra minha arma
É as déis corda do meu pinho
Vancê qué sê presidente?
Apois seje, meu patrão
Nóis já ficava contente
Se vancê desse pra gente
Um restozinho de pão...
A nossa terra, o Brasí
Já tem muita intiligença
Muito homi de sabença
Que só dá pra espertáião
Leva o diabo a falação
Pra sarvá o mundo intero
Abasta tê coração...
Pros homi de intiligença
Trago comigo essa figa
Esses homi tem cabeça
Mais porém, o que é mais grande
Do que a cabeça, é a barriga...
Vancê leva nesses livros
Lendo, lendo a tuda hora
Mas porém eu só queria
Cunhecê, seo conseiêro
O que vancê ignora
E abasta, já vô mimbora...
e ó!
Se um dia vancê quisé
Passá uns dia de fome
De fome e tarveis de sede
E drumi lá numa rede
Numa casa de sapé
Vá passá cumigo uns tempo
Nos mato do meu sertão
Que eu hei de lhe abri a porta
Da choça e do coração
Eu vorto pros matagá
Mas porém oiça premero
Vancê pode nois xingá
Nois chamá de madracero
Pruque nós, seo conseiêro
Num qué mais sê bestaião
Vá tratá das inleição
E voismecê hai de vê
Pitando seu cachimbão
O Jeca Tatu se rindo, aqui
Cuspindo, sempre cuspindo
Cum queixo im riba da mão...
Eu sei que sô um animá
Eu não sei memo o que eu sô...
Mais porém eu lhe agaranto
Que o que vancê já falô
E o que ainda tem de falá
E o que tem de escrevê...
Todo, todo o seu sabê
E toda a sua saranha
Num vale uma palavrinha
Daquelas coisa bonita
Que Jesus numa tardinha
Disse em riba da montanha

(Em Boldrin, Rolando (org.). Empório Brasil; atos e artefatos. São Paulo, Clube do Livro / Melhoramentos, 1988, p.92-97)
**************************************

Reply  Message 8 of 10 on the subject 
From: QUIM TROVADOR Sent: 30/11/2009 14:33
 
 
CONFISSãO DE CABôCO

Zé da Luz

Seu duotô, sou criminoso.
Sou criminoso de morte.
Tou aqui pra mim intregá.
Voimicê fique sabendo:
- Quando a muié traz a sorte
De atraiçoá o isposo
Só presta para se matá.
Nunca pensei, seu doutô
Qui a mão nêga do distino,
Merguiasse as minhas mão
No sangue dos assarcino!
Vô li pidí um favô
Ante de vossamercê
Mim butá daqui pra fora:
- É a licença do doutô
Preu li contá minha histora.
Sinhô dotô delegado,
Digo a vossa sinhuria
Qui inté onte fui casado
Cum a muié qui im vida
Se chamô ROSA MARIA.
Faz dez mês qui se gostemo,
Faz oito qui fumo noivo
Faz sete qui nós casêmo.
Nós casêmo e nós vivia
Cuma pobre, é verdade,
Mas a gente se sentia
Rico de filicidade!
Pras banda qui nós morava,
No lugá Chã da Cutia,
Morava tombém um cabra
Chamado Chico Faria.
Esse cabra, antigamente,
Tinha gostado de Rosa,
Chegaro, inté a sê noivo,
Mas num fizero a "introza"
Do casamento, prumode
Mané Uréia de bode,
Qui era padrim de Maria
Tê dismanchado essa prosa.
Entoce, o Chico Faria,
Adispois qui nós casêmo,
In cunversa, as vez dizia,
Qui ainda mi dava fim
Pra se casá cum Maria.
Dessa coisa eu sabia,
Mas nunca dei importança.
Tinha toda cunfiança
Na muié qui eu tanto amava,
Ou mais mió, adorava...
Cum toda a minha sustança!
Dispois disso, o meu custume
Era vivê trabaiando
Sem da muié tê ciume.
A muié pru sua vez
Nunca me deu cabimento
Deu pensá qui ela fizesse
Um dia um farcejamento.
Mas, seu doutô, tome tento
No resto da minha histora,
Qui o ruim chegô agora:
Se não me farta a mimora,
Já faz assim uns três mêis,
Qui o cabra, Chico Faria,
Todo prosa, todo ancho,
Quage sempre, mais das vêz,
Avistava o meu rancho.
Puralí, discunfiado
Como quem qué e não qué,
Eu fui vendo qui o marvado
Tentava a minha muié.
Ou tentação ou engano,
Eu fui vendo a coisa feia!
Pru derradêro eu já tava
Ca mosca detrás da uréia.
Os tempo foi se passando
E o meu arriceiamento
Cada vez ia omentano.
Seu dotô, vá iscutano:
Onte, já de tardezinha
O meu cumpade, Quinca Arruda,
Mi chamô pra nós dança
Num samba - lá na Varginha,
Na casa do mestre Duda.
Mestre Duda é um cabôco,
Um tocado de premêra.
É o imboladô de côco
Mió daquela rebêra.
Entonce Rosa Maria,
Sempre gostou de samba,
Mas, porém, de tardezinha
Me disse discunfiada,
Qui pru samba ela não ia,
Qui tava munto infadada,
Percisava se deita...
Eu fiquei discunfiado
Cum a preposta da muié!
Dispois qui tomei café,
Cuage puro sem mistura,
Cum a faca na cintura
Fui pru samba, fui sambá.
Cheguei no samba, dotô.
Repare agora, o sinhô,
Quem era qui tava lá?
O cabra Chico Faria.
Qui quano foi me avistando,
Foi logo mi preguntando:
- Cadê siá dona Maria,
Num veio não, pra dançá?
- Não sinhô. Ficô im casa.
Pru cabôco arrispondí.
Senti, entonce uma brasa
Queimano meu coração,
Nunca mais pude tirá
As palavra desse cabra
Da minha maginação.
Perdí o gosto da festa
E dançá num pude não.
O cabra, pru sua vez
Num dançava, seu doutô.
De vez im quando me oiva
Cum um oiá de traidô.
Meia noite, mais ou meno,
Se dispidino do povo
Disse: - Adeus, qui eu já vô.
Quando ele se arritirô,
Eu tombem me arritirei
Atraiz dele, sim sinhô.
Ele na frente, eu atrais.
Se o cabra andava ligêro,
Eu andava munto mais!
Noite iscura qui nem breu!
Nem eu avistava o cabra,
Nem o cabra via eu!
Sempre andando, sempre andando.
Ele na frente, eu atrais.
Já nem se iscutava mais
A voz do fole tocando
Na casa do mestre Duda!
A noite tava mais preta
Qui a cunciênça de Judá!
Sempre andando, sempre andando.
Eu fui vendo, seu doutô,
Qui o marvado ia tumando
Direção da minha casa!
Minha casa!... Sim sinhô!
Já pertinho, no terrero
Eu mim iscundí pru detraiz
De um pé de trapiazêro.
Abaixadim, iscundido,
Prendi a suspiração,
Abri os óio, os ouvido,
Pra mió vê e ouvi
Qua era a sua intenção.
Seu doutô, repare bem:
O cabra oiando pra traiz,
Do mermo jeito, qui faiz
Um ladrão pra vê arguém,
Num tendo visto ninguém,
Na minha porta bateu!
De lá de dentro uma voiz
Bem baixim arrispondeu...
Ele entonce, cá de fora:
- Quem ta bateno sou eu!
De repente abriu-se a porta!
Aí seu doutô, nessa hora
A isperança tava morta,
Tava morto o meu amô...
No iscuro uma voiz falô:
- Taqui, seu Chico, essa carta,
Qui a tempo tinha iscrivido
Pra mandá pra voismicê.
Pru favô num leia agora,
Vá simbora, vá simbora,
Qui quando chegá im casa
Tem munto tempo pra lê.
Quando minhas oiça ouviu,
As palavra qui Maria
Dizia pru disgraçado,
Eu fiquei amalucado,
Fiquei quage cuma loco,
Ou mio, cumo um cabôco
Quando ta chêi de isprito!
Dum sarto, cumo um cabrito,
Eu tava nos pés do cabra
E sem querer dei um grito:
- Miserave! E arrastei
Minha faca da cintura.
Naquela hora dotô,
Eu vi o Chico Faria,
Na bêra da sipurtura!
Mas o cabra têve sorte.
Sempre nessas circunstança
Os home foge da morte.
Correu o cabra, dotô
Tão vexado, qui dêxou
A carta caí no chão!
Dei de garra do papé,
O portadô da traição!
Machuquei nas minha mão,
A honra, douto, a honra
Daquela farsa muié!
Dispois oiando pra carta
Tive pena, pode crer,
De num tê prindido a lê.
Nas letra alí iscrivida
O qui dizia Maria
Pru marvado traidô.
Tive pena, sim sinhô.
Mas, qui haverá de fazê
Se eu nunca prindí a lê?
Maria mi atraiçuô!
Essa muié qui um dia,
Juêiada nos pé do artá
Jurou im nome de Deus
Qui inquanto tivesse vida,
Haverá de mim honrá
E mim amá cum todo amo.
Cum perdão do seu doutô.
Quando eu vi a miserave
Na iscurideza da noite
Dos meu oio se iscondê
Sem dêxá nem sombra inté
Entrei pra dentro de casa
Pra mi vingá da muié.
Douto, qui hora minguada!
Maria tava ajuêiada,
Chorando, cum as mão posta
Cumo quem faz oração.
Oiando pra eu pedia,
Pelo cali, pela osta,
Pru Jesus crucificado,
Pelo amo qui eu li amava
Qui num fizesse isso não.
Eu tava, doutô, eu tava
Cego de raiva e paixão.
Sem dizê uma palavra,
Agarrei nas suas mão,
Levantei ela pra riba
E interrei inté o cabo,
O ferro da parnaíba
Pru riba do coração!
Sarvei a honra, doutô,
Sarvei a honra, apois não!
Dispois qui vi a Maria
Caí sem vida no chão,
Vim fala cum vosmicê,
Vim cunfessá o meu crime
E mim intregá as prisão.
Se o sinhô num acredita
Se eu sô criminoso ou não,
Tá aqui a faca assarcina
E o sangue nas minhas mão.
Cumo prova da traição,
Tá aqui a carta, doutô.
Li peço um grande favô:
Ante de vossa-sinhuria
Mi mandá lá para prisão
Me lêia aqui essa carta
Preu sabê cumo Maria
Perparava essa trição!
A CARTA
"Seu Chico:
Chã da Cutia.
Digo a vossa senhoria
Que só lhe escrevo essa carta
Pru senhor ficar sabendo
Que eu não sou a mulher
Que o senhor tá entendendo.
Se o senhor continuar
Com os seus disbiques atrevidos
O jeito que tem é contar
Tudo, tudo a meu marido.
O senhor fique sabendo
Que com seu discaramento,
Não faz nunca eu quebrar
O sagrado juramento
Que eu jurei nos pés do altar,
No dia do casamento.
Se o senhor é inxirido,
Encontrou ua mulher forte,
O nome do meu marido
Eu honro até minha morte!
Sou de vossa senhoria,
Sua criada.
MARIA."
- Doutô! Doutô mi arresponda
O qui é qui eu tô ouvindo?
Vosmicê leu a carta,
Ou num leu, ta mi inludindo?
- Doutô! Meu Deus! Seu doutô,
Maria tava inucente?
Me arresponda pru favo!
Inocente! Sim, senhor!
Matei Maria inucente!
Pru que, seu doutô, pru que?
Matei Maria somente
Pruque num aprendi a lê!
Infiliz de quem num leu
Uma carta de ABC.
Magine agora o doutô,
Quanto é grande o meu sofrê!
Sou duas veiz criminoso,
Qui castigo, seu doutô!
Qui mizera! Qui horrô!
Qui crime num sabê lê!

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From: QUIM TROVADOR Sent: 05/12/2009 20:52
( O FARMACEUTICO DE CARAÚBAS )
 
Cidade de Caraúbas
De pequeníssimo porte
Na zona oeste do Estado
Do Rio Grande do Norte
Lá da serra do Martins
Já beirando os contrafortes

Sem precisar passaporte,
Saindo de Mossoró,
O seu FRANCISCO MINAN
Já morara em Caicó
E em Jardim de Piranhas;
Até então sempre só.

Na região em redor,
Muitas criações de bois...
MINAN também teve reses,
Mas somente anos depois.
Foi morar em Caraúbas
No ano de vinte e dois.

Tinha o seu feijão com arroz,
Mesmo em fase propedêutica,
No tratamento de enfermos,
Na ciência farmacêutica.
Desenvolveu-se bem rápido
Com sua boa hermenêutica.

Na tarefa terapêutica
Começara muito cedo,
Desde os vinte e quatro anos
Sem demonstrar qualquer medo
Lá da PHARMÁCIA ROSADO,
Ficou conhecendo os segredos

O seu primeiro degredo
Por ele mesmo escolhido,
Foi no ano dezessete,
Mas já antes decidido.
Pôs Farmácia em Caicó
Era homem resolvido

Como sempre tinha sido
Sua vida até então,
Foi morar em Caraúbas
Ao comprar do capitão
Luís Guerra uma farmácia
Da qual fez seu ganha-pão.

Abraçou essa missão:
Ser o clínico da cidade
Pois ali não tinha medico,
E toda enfermidade
Era ele que curava
Mesmo de mor gravidade

Olhava a necessidade
De tanta gente a sofrer
De muitos pobres matutos
Que sequer sabiam ler
Ele aviava as receitas
E o pagamento... cadê

Eu vou dizer a você
Pois é a pura verdade:
A muitos que receitava
Lhes fazia a caridade
De também dar o remédio,
Conforme a necessidade.

Já conhecido na cidade,
Foi atender a um chamado
De seu Delmiro Fernandes
Um fazendeiro abastado
Que sofria de uma hérnia,
A qual tinha estrangulado.

Logo viu-se apresentado
Na casa do fazendeiro:
Eu sou o senhor Francisco
Minan Sales de Medeiros
Disse, antes de entrar,
Ainda estando no terreiro.

É que, pra seu desespero,
Avistou, antes de entrar,
Na janela, bela jovem ,
Que absorveu-lhe o olhar
Pensou consigo: “-Esta jovem
É com quem quero casar.”

Depois de ali receitar,
Ao seu Delmiro, afinal,
Prescreveu-lhe analgésicos
E uma funda escrotal
O tratamento correto
Naquele casos o normal

Mas o que era anormal,
Naquela ocasião,
Era o seu tremor nas pernas
Bastando ver no oitão
Da casa do seu Delmiro,
A jovem varrendo o chão.

Prestando mais atenção,
Enquanto ali conversava
Observou que a jovem
Pra ele também olhava
Com invulgar insistência
Como quem o namorava.

No seu peito acalentava,
Já sendo jovem maduro,
Casar. Ter mulher e filhos
É como via o futuro;
Trabalhava desde há muito
Pisava num chão seguro.

Com muito esmero e apuro,
Numa esperança profunda
Gravou o nome da moça
Que disseram ser Raimunda
Uma alegria intensa
O seu coração inunda.

O júbilo mais se lhe abunda
Quando já se despedia,
Da casa de seu Delmiro,
Pois a jovem lhe sorria,
Embora um sorriso tímido
Que fraternal parecia.

E logo no outro dia,
Seu Minan já retornou
Á casa de seu Delmiro,
E os remédios lhe entregou -
Analgésicos para que
Lhe aliviassem a dor.

Outro tanto se passou
Como a visita passada,
Os olhares entre os moços,
Os pais sem perceber nada
Seu Minan puxou assunto
Fez conversa demorada.

Mas a farmácia fechada
O fez despedir-se, enfim...
Prometeu que voltaria,
Não era tão longe assim;
Só demoraria um pouco
Se fizesse tempo ruim.

Em pouco tempo, por fim,
Foram visitas freqüentes
à casa de seu Delmiro,
Seu mais novo paciente.
Achava sempre um motivo
Para voltar novamente.

Já estava impaciente
Pra ter azado o momento
De falar aos pais da jovem
Lhes pedir consentimento
Pra namorar com Raimunda,
Depois propor casamento.

Havia um impedimento,
Porém, um grave problema,
Raimunda já era noiva
E ela estava num dilema
Pra desfazer o noivado
Sem urdir estratagema.

Juntou ela força extrema
E foi falar ao rapaz,
Que era Raimundo Rosendo;
Lhe disse não ser capaz
De casar-se, amando a outro,
Pois nunca teria paz.

Rosendo sofreu demais
Ao ser assim informado,
Mas entendeu as razões
Da noiva e, conformado,
Logo casou-se com outra
E esqueceu o passado.

Assim, ficou acertado
O enlace nupcial
De seu Minan e Raimunda;
Completou-se o enxoval.
Dona Júlia e seu Delmiro
Abençoaram o casal.

O casamento, afinal,
Pra vinte e sete de junho,
Foi marcado. E seu Minan
Escreveu de próprio punho
Os convites aos amigos
Para darem testemunho.

Um relato deste cunho
Me pede um final feliz.
De um total de doze filhos,
Somente um Deus não quis
Que viesse vivo ao mundo,
Ter os direitos civis.

Esta poesia eu fiz
Após ter lido “LEMBRANçAS”
A obra do Doutor Delby,
Que, bom filho, não se cansa
De nos trazer as memórias
De seu tempo de criança.

* * * * *
J-acira, o seu presente
O-doutor Delby agradece.
A-tendi a seu pedido...
Q-ue melhor rima tivesse!
U-ma poesia assim
I-nda não é coisa pra mim,
M-as Deus querendo, acontece. RMACêUTICO DE CARAÚBAS )

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From: QUIM TROVADOR Sent: 05/12/2009 20:53

Estória de João-Joana

Carlos Drummond de Andrade
e Sérgio Ricardo


Meu leitor, o sucedido
em Lajes do Caldeirão
é caso de muito ensino,
merecedor de atenção.
Por isso é que me apresento
fazendo esta relação.

Vivia em dito arraial
do país das Alagoas
um rapaz chamado João
cuja força era das boas
pra sujigar burro bravo,
tigres, onças e leoas.

João, lhe deram este nome
não foi de letra em cartório
pois sua mãe e seu pai
viviam de peditório.
Gente assim do miserê
nunca soube o que é casório.


Ficou sendo João, pois esse
é nome de qualquer um.
Não carece excogitar,
pedir a doutor nenhum,
que a sentença vem do Céu,
não de lá do Barzabum.

De pequeno ficou órfão,
criado por seus dois manos.
Foi logo para o trabalho
com muitos outros fulanos
e seu muque, sem mentira,
era o de três otomanos.

Na enxada, quem que vencia
aquele tico de gente.
No boteco, se ele entrava
pra bochechar aguardente,
o saudavam com respeito
Deus lhe salve, meu parente.

João moço não enjeitava
parada com sertanejo.
Podiam brincar com ele
sem carregar no gracejo.
Dizia que homem covarde
não é cabra, é percevejo.

Um dia de calor desses
que tacam fogo no agreste,
João suava  que suava
sem despir a sua veste.
Companheiro, essa camisa
não é coisa que moleste?

lhe perguntou um amigo
que estava de peito nu.
E João se calado estava
nem deu pio de nambu.
Ninguém nunca viu seu pêlo,
nem por trás do murundu.

João era muito avexado
na hora de tomar banho.
Punha tranca no barraco
fugindo a qualquer estranho.
Em Lajes nenhum varão
tinha recato tamanho.

João nas últimas semanas
entrou a sofrer de inchaço.
Mesmo assim arranca toco
sem se carpir de cansaço.
Um dia, não güenta mais,
exclama: O que é que eu faço?

Os manos vendo naquilo
coisa mei desimportante,
logo receitam de araque
meizinha sem variante
para qualquer macacoa:
Carece tomar purgante.

João entrou no purgativo
louco de dor e de medo
se entorcendo e contorcendo
na solidão do arvoredo
pois ele em sua aflição
lá se escondera bem cedo.

O gemido que exalava
do peito de João sozinho
alertou os seus dois manos
que foram ver de mansinho
como é que aquele bravo
se tornara tão fraquinho.


No chão de terra, essa terra
que a todos nós vai comer,
chorava uma criancinha
acabada de nascer,
E João, de peito desnudo,
acarinhava este ser.

Aquela cena imprevista
causou a maior surpresa.
O que tanto se ocultara
se mostrava sem defesa.
João deixara de ser João
por força da natureza.

A mulher surgia nele
ao mesmo tempo que o filho,
tal qual se brotassem junto
a espiga com o pé de milho,
ou como bala que estoura
sem se puxar o gatilho.

Se os manos levaram susto,
até eu, que apenas conto.
E o povo todo, assuntando
a estória ponto por ponto,
ficou em breve inteirado
do que aí vai sem desconto.

Nem menino nem menina
era João quando nasceu.
A mãe, sem saber ao certo,
o nome de João lhe deu,
dizendo: Vai vestir calça
e não saia que nem eu.

à proporção que crescia
feito animal na campina,
em João foi-se acentuando
a condição feminina,
mas ele jamais quis ser
tratado feito menina.

Pois nesse triste povoado
e cem léguas ao redor,
ser homem não é vantagem
mas ser mulher é pior.
Quem vê claro já conclui:
de dois males o menor.

Homem é grão de poeira
na estrada sem horizonte;
mulher nem chega a ser isso
e tem de baixar a fronte
ante as ruindades da vida,
de altura maior que um monte.

A sorte, se presenteia
a todos doença e fome,
para as mulheres capricha
num privilégio sem nome.
Colhe miséria maior
e diz à coitada: Tome.

É forma de escravidão
a infinita pobreza,
mas duas vezes escrava
é a mulher com certeza,
pois escrava de um escravo
pode haver maior dureza?

Por isso aquela mocinha
fez tudo para iludir
aos outros e ao seu destino.
Mas rola não é tapir
e chega lá um momento
da natureza explodir.

João vira Joana: acontecem
dessas coisas sem preceito.
No seu colo está Joãozinho
mamando leite de peito.
Pelo menos esse aqui
de ser homem tem direito.

De ser homem: de escolher
o seu próprio sofrimento
e de escrever com peixeira
a lei do seu mandamento
quando à falta de outra lei
ou eu fujo ou arrebento.

Joana desiste de tudo
que ganhara por mentira.
Sabe que agora lhe resta
apenas do saco a embira.
E nem mesmo lhe aproveita
esta minha pobre lira.

Saibam quantos deste caso
houverem ciência, que a vida
não anda, em favor e graça,
igualmente repartida,
e que dor ensombra a falta
de amor, de paz e comida.

Meu leitor (não eleitor,
que eu nada te peço a ti
senão me ler com paciência
de Minas ao Piauí):
tendo contado meu conto,
adeus, me despeço aqui.


Esse cordel musical de autoria de Carlos Drummond de Andrade e Sérgio Ricardo, foi gravado no Estúdio Transamérica - Rio de Janeiro, em fevereiro, março e abril de 1985, com voz e arranjo de Sérgio Ricardo, orquestração de Radamés Gnattali e regência de Alexandre Gnattali.

Foi extraído do livro "Carlos Drummond de Andrade - Poesia Completa", Editora Nova Aguilar - Rio de Janeiro, 2002, pág. 617.



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