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BIBLIOTECA DA LUSOFONIA: POETAS AFRICANOS
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From: QUIM TROVADOR  (Original message) Sent: 25/04/2010 15:46
 

AGUINALDO FONSECA



Nasceu em Cabo Verde, em 1922. Sua poesia é muito difundida na web e em obras coletivas em diversos países.




TEXTOS EM PORTUGUêS / TEXTO EN ESPAÑOL



MãE NEGRA-



A mãe negra embala o filho.

Canta a remota canção

Que seus avós já cantavam

Em noites sem madrugada.

Canta, canta para o céu

Tão estrelado e festivo.

É para o céu que ela canta,

Que o céu

às vezes também é negro.

No céu

Tão estrelado e festivo

Não há branco, não há preto,

Não há vermelho e amarelo.

—Todos são anjos e santos

Guardados por mãos divinas.

A mãe negra não tem casa

Nem carinhos de ninguém...

A mãe negra é triste, triste,

E tem um filho nos braços...

Mas olha o céu estrelado

E de repente sorri.

Parece-lhe que cada estrela

É uma mão acenando

Com simpatia e saudade...





CANçãO DOS RAPAZES DA ILHA



Eu sei que fico.

Mas o meu sonho irá

pelo vento, pelas nuvens, pelas asas.



Eu sei que fico

Mas o meu sonho irá ...



Eu sei que fico

Mas o meu sonho irá

Nos frutos, nos colares

E nas fotografias da terra,

Comprados por turistas estrangeiros

Felizes e sorridentes.

Eu sei que fico mas o meu sonho irá ...



Eu sei que fico

Mas o meu sonho irá

Metido na garrafa bem rolhada

Que um dia hei de atirar ao mar.

Eu sei que fico

Mas o meu sonho irá ...

sei que fico

Mas o meu sonho irá

Nos veleiros que desenho na parede.


TEXTO EN ESPAÑOL

TABERNA DEL LITORAL



Una lucecilla distante

Y um farol escupiendo luz

En la negra cara de la noche.



Todos es salado y nostálgico.



Vientos con olas en las costas

Hacen temblar la taberna

Que es un navío encallado.



Amor intenso y brutal

Entre navajas abierta

Y el abandono

De una ramera entre los brazos.

Andan en el aire desesperaciones

En densas volutas de humo.



Botellas, vasos, botellas

1.Ay la sed del marinero…
Tatuajes picando la piel

Gritan el dolor y la braveza

De las aventuras en los puertos.



Gente de todas las razas,

Gente sin patria y sin nombre

1.Apenas gente de mar.


Con voz de sal y de viento

Y barcos en los líquidos ojos.



Entran el Tedio y la Nostalgia

Mordiendo viejas cachimbas…

Entran y salen después

Llevando, a tumbos, un borracho.



Barajas, mesas y bancos,

Botellas, vasos, botellas

Y la cara del tabernero

Instiga a viejas revueltas.



¡y todo lleno de vicios,

Y todo lleno de sueño

Y todo lleno de mar!



Extraído de POETAS AFRICANOS CONTEMPORÁNEOS, org. Fayada Jamis, Virgilio Piñera, Armando Álvarez Bravo, Manuel Cabrera y David Fernándes. (Traductores). Madrid: Biblioteca Jucar, 1975.

 

 


AGOSTINHO NETO

(1922-1979)



Antonio Agostinho Neto nasceu em Icola e Bengo, Angola. Estudou medicina em Portugal. Foi um dos dirigentes do movimento de independência de seu país e, triunfante, foi o primeiro presidente da nova república. Biografia política controversa e uma obra literária reconhecida internacionalmente.





TEXTO EM PORTUGUêS / TEXTOS EN ESPAÑOL





O CHORO DE ÁFRICA



O choro durante séculos

nos seus olhos traidores pela servidão dos homens

no desejo alimentado entre ambições de lufadas romnticas

nos batuques choro de África

nos sorrisos choro de África

nos sarcasmos no trabalho choro de África



Sempre o choro mesmo na vossa alegria imortal

meu irmão Nguxi e amigo Mussunda

no círculo das violências

mesmo na magia poderosa da terra

e da vida jorrante das fontes e de toda a parte e de todas as almas

e das hemorragias dos ritmos das feridas de África



e mesmo na morte do sangue ao contato com o chão

mesmo no florir aromatizado da floresta

mesmo na folha

no fruto

na agilidade da zebra

na secura do deserto

na harmonia das correntes ou no sossego dos lagos

mesmo na beleza do trabalho construtivo dos homens



o choro de séculos

inventado na servidão

em historias de dramas negros almas brancas preguiças

e espíritos infantis de África

as mentiras choros verdadeiros nas suas bocas



o choro de séculos

onde a verdade violentada se estiola no circulo de ferro

da desonesta forca

sacrificadora dos corpos cadaverizados

inimiga da vida



fechada em estreitos cérebros de maquinas de contar

na violência

na violência

na violência



O choro de África e' um sintoma



Nos temos em nossas mãos outras vidas e alegrias

desmentidas nos lamentos falsos de suas bocas - por nós!

E amor

e os olhos secos.







Adeus à hora da largada



Minha Mãe

(todas as mães negras

cujos filhos partiram)

tu me ensinaste a esperar

como esperaste nas horas difíceis



Mas a vida

matou em mim essa mística esperança



Eu já não espero

sou aquele por quem se espera



Sou eu minha Mãe

a esperança somos nós

os teus filhos

partidos para uma fé que alimenta a vida



Hoje

somos as crianças nuas das sanzalas do mato

os garotos sem escola a jogar a bola de trapos

nos areais ao meio-dia

somos nós mesmos

os contratados a queimar vidas nos cafezais

os homens negros ignorantes

que devem respeitar o homem branco

e temer o rico

somos os teus filhos

dos bairros de pretos

além aonde não chega a luz elétrica

os homens bêbedos a cair

abandonados ao ritmo dum batuque de morte

teus filhos

com fome

com sede

com vergonha de te chamarmos Mãe

com medo de atravessar as ruas

com medo dos homens

nós mesmos



Amanhã

entoaremos hinos à liberdade

quando comemorarmos

a data da abolição desta escravatura



Nós vamos em busca de luz

os teus filhos Mãe

(todas as mães negras

cujos filhos partiram)

Vão em busca de vida.



(Sagrada esperança)





CRIAR



Criar criar

criar no espírito criar no músculo criar no nervo

criar no homem criar na massa

criar

criar com os olhos secos



Criar criar

sobre a profanação da floresta

sobre a fortaleza impudica do chicote

criar sobre o perfume dos troncos serrados

criar

criar com os olhos secos



Criar criar

gargalhadas sobre o escárnio da palmatória

coragem nas pontas das botas do roceiro

força no esfrangalhado das portas violentadas

firmeza no vermelho-sangue da insegurança

criar

criar com os olhos secos



Criar criar

estrelas sobre o camartelo guerreiro

paz sobre o choro das crianças

paz sobre o suor sobre a lágrima do contrato

paz sobre o ódio

criar

criar paz com os olhos secos.

Criar criar

criar liberdade nas estradas escravas

algemas de amor nos caminhos paganizados do amor



sons festivos sobre o balanceio dos corpos em forcas

[simuladas



criar

criar amor com os olhos secos.





ASPIRAçãO



Ainda o meu canto dolente

e a minha tristeza

no Congo, na Geórgia, no Amazonas



Ainda o meu sonho de batuque em noites de luar



Ainda os meus braços

ainda os meus olhos

ainda os meus gritos



Ainda o dorso vergastado

o coração abandonado

a alma entregue à fé

ainda a dúvida



E sobre os meus cantos

os meus sonhos

os meus olhos

os meus gritos

sobre o meu mundo isolado

o tempo parado

Ainda o meu espírito

ainda o quissange

a marimba

a viola

o saxofone

ainda os meus ritmos de ritual orgíaco



Ainda a minha vida

oferecida à Vida

ainda o meu desejo



Ainda o meu sonho

o meu grito

o meu braço

a sustentar o meu Querer



E nas sanzalas

nas casas

nos subúrbios das cidades

para lá das linhas

nos recantos escuros das casas ricas

onde os negros murmuram: ainda



O meu Desejo

transformado em força

inspirando as consciências desesperadas.

*



Sou um mistério.

Vivo as mil mortes
que todos os dias


morro

fatalmente.



Por todo o mundo

o meu corpo retalhado

foi espalhado aos pedaços

em explosões de ódio

e ambição

e cobiça de glória.



Perto e longe

continuam massacrando-me a carne

sempre viva e crente

no raiar dum dia

que há séculos espero.



Um dia

que não seja angústia

nem morte

nem já esperança.



Dia

dum eu-realidade.










TEXTOS EN ESPAÑOL





EL LLANTO DE ÁFRICA



El llanto durante siglos

en sus traidores por la esclavitud de los hombres

en el deseo alimentado entre ambiciones de soplos románticos

en los tambores llanto de África

en las sonrisas llanto de África

en los sarcasmos en el trabajo llanto de África.



Siempre el mismo llanto en nuestra alegría inmortal

mi hermano Nguxi y mi amigo Mussunda

en el círculo de las violencias

aun la magia poderosa de la tierra

y de la vida fluyente de las fuentes y de todas lpartes y de todas las almas

y de las hemorragias de los ritmos de las heridas de África

hasta en el florecer aromatizado de la selva

hasta en la hoja

en el fruto

en la agilidad de la cebra

en la sequedad del desierto

en la armonía de las corrientes o en el sosiego de los lagos

hasta en la belleza del trabajo creador de los hombres.



El llanto de siglos

inventado en la esclavitud

en histerias de dramas negros almas blancas perseguidas

y espíritus infantiles de África

las mentiras llantos verdaderos en sus bocas.



El llanto de siglos

donde la violada verdad se consume en el círculo de hierro

en la deshonesta fuerza

sacrificadora de los cuerpos cadavéricos

enemiga de la vida

cerrada en los estrechos cerebros de máquinas de contar

en la violencia

en la violencia

en la violencia.



El llanto de África es un síntoma.



¡Nosotros tenemos en nuestras manos otras vidas y alegrías

desmentidas por nosotros en los lamentos falsos de sus bocas!



Y amor.

Y los ojos secos.





Extraído de POETAS AFRICANOS CONTEMPORÁNEOS, org. Fayada Jamis, Virgilio Piñera, Armando Álvarez Bravo, Manuel Cabrera y David Fernándes. (Traductores). Madrid: Biblioteca Jucar, 1975.







Despedida en el momento de partir



Madre mía

(oh madres negras cuyos hijos han partido),

me enseñaste a esperar y confiar

como tú lo hiciste en las horas del desastre.



Pero en mí

la vida ha matado esa esperanza misteriosa.



Ya no espero más,

soy yo el esperado.



Nosotros mismos somos la esperanza,

tus hijos,

viajando hacia una fe que nutre la vida.



Nosotros, los hijos desnudos de los matorrales,

criaturas sin instrucción que juegan con pelotas de trapo

en las llanuras del mediodía,

nosotros mismos

conchabados para quemar nuestras vidas en los cafetales,

negros ignorantes.

que deben respetar a los blancos

y temer a los ricos,

somos tus hijos del barrio de los nativos

donde nunca llega la electricidad;

hombres que mueren ebrios,

abandonados al ritmo de los tam-tams de la muerte,

tus hijos,

que tienen hambre, que tienen sed,

que se avergüenzan de llamarte madre,

que tienen miedo de cruzar las calles,

que tienen miedo de los hombres.



Somos nosotros mismos,

la esperanza de la vida recobrada.





Extraído de POESIA AFRICANA DE HOY. Selección y versión de William Shand y Rodolfo Benasso. Buenos Aires: Editorial Sudamericana, 1968.
 


ALDA LARA
(1930-1962)

Alda Ferreira Pires Barreto de Lara Albuquerque nasceu em Benguela, Angola, no dia 9 de junho de 1930. Viveu em Lisboa desde a adolescência, onde concluiU o liceu e frequentou as Faculdades de Medicina de Lisboa e de Coimbra (onde licenciou-se). Exerceu influência na renovação da poesia angolana, com seu comprometimento com a luta pela independência.



AS BELAS MENINAS PARDAS

As belas meninas pardas
são belas como as demais.
Iguais por serem meninas,
pardas por serem iguais.

Olham com olhos no chão.
Falam com falas macias.
Não são alegres nem tristes.
São apenas como são
todos dos dias.

E as belas meninas pardas,
estudam muito, muitos anos.
Só estudam muito. Mais nada.
Que o resto, trás desenganos>>>

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

Nos passeios de domingo,
andam sempre bem trabajadas.
Direitinhas. Aprumdas.
Não conhecem o sabor que tem uma gargalhada
(Parece mal rir na rua!...)

E nunca viram a lua,
debruçada sobre o rio,
às duas da madrugada.

Sabem muito escolarmente.
Sabem pouco humanamente.

E desejam, sobretudo, um casamento decente...

O mais, são histórias perdidas...
Pois que importam outras vidas?...
outras raças?... , outros mundo?...
que importam outras meninas,
felizes, ou desgraçadas?!...

As belas meninas pardas,
dão boas mães de família,
e merecem ser estimadas...





PRELÚDIO



Pela estrada desce a noite

Mãe-Negra, desce com ela...



Nem buganvílias vermelhas,

nem vestidinhos de folhos,

nem brincadeiras de guisos,

nas suas mãos apertadas.

Só duas lágrimas grossas,

em duas faces cansadas.



Mãe-Negra tem voz de vento,

voz de silêncio batendo

nas folhas do cajueiro...



Tem voz de noite, descendo,

de mansinho, pela estrada...



Que é feito desses meninos

que gostava de embalar?...



Que é feito desses meninos

que ela ajudou a criar?...

Quem ouve agora as histórias

que costumava contar?...



Mãe-Negra não sabe nada...



Mas ai de quem sabe tudo,

como eu sei tudo

Mãe-Negra!...



Os teus meninos cresceram,

e esqueceram as histórias

que costumavas contar...



Muitos partiram p'ra longe,

quem sabe se hão-de voltar!...



Só tu ficaste esperando,

mãos cruzadas no regaço,

bem quieta bem calada.



É a tua a voz deste vento,

desta saudade descendo,

de mansinho pela estrada..





Lisboa, 1951 (de Poemas, 1966





PRESENçA AFRICANA



E apesar de tudo,

Ainda sou a mesma!

Livre e esguia,

filha eterna de quanta rebeldia

me sagrou.

Mãe-África!



Mãe forte da floresta e do deserto,

ainda sou,

a Irmã-Mulher

de tudo o que em ti vibra

puro e incerto...



A dos coqueiros,

de cabeleiras verdes

e corpos arrojados

sobre o azul...

A do dendém

Nascendo dos braços das palmeiras...



A do sol bom, mordendo

o chão das Ingombotas...

A das acácias rubras,

Salpicando de sangue as avenidas,

longas e floridas...



Sim!, ainda sou a mesma.

A do amor transbordando

pelos carregadores do cais

suados e confusos,

pelos bairros imundos e dormentes

(Rua 11!... Rua 11!...)

pelos meninos



de barriga inchada e olhos fundos...



Sem dores nem alegrias,

de tronco nu

e corpo musculoso,

a raça escreve a prumo,

a força destes dias...



E eu revendo ainda, e sempre, nela,

aquela

Longa história inconsequente...



Minha terra...

Minha, eternamente...



Terra das acácias, dos dongos,

dos cólios baloiçando, mansamente...

Terra!

Ainda sou a mesma.



Ainda sou a que num canto novo

pura e livre,

me levanto,

ao aceno do teu povo!



Benguela,1953 (de Poemas,1966)





TESTAMENTO





à prostituta mais nova

Do bairro mais velho e escuro,

Deixo os meus brincos, lavrados

Em cristal, límpido e puro...



E àquela virgem esquecida

Rapariga sem ternura,

Sonhando algures uma lenda,

Deixo o meu vestido branco,

O meu vestido de noiva,

Todo tecido de renda...



Este meu rosário antigo

Ofereço-o àquele amigo

Que não acredita em Deus...



E os livros, rosários meus

Das contas de outro sofrer,

São para os homens humildes,

Que nunca souberam ler.



Quanto aos meus poemas loucos,

Esses, que são de dor

Sincera e desordenada...

Esses, que são de esperança,

Desesperada mas firme,

Deixo-os a ti, meu amor...



Para que, na paz da hora,

Em que a minha alma venha

Beijar de longe os teus olhos,



Vás por essa noite fora...

Com passos feitos de lua,

Oferecê-los às crianças

Que encontrares em cada rua...






NOITE



Noites africanas langorosas,

esbatidas em luares...,

perdidas em mistérios...

Há cantos de tungurúluas pelos ares!...

....................................................

onde o barulhento frenesi das batucadas,

põe tremores nas folhas dos cajueiros...

......................................................

Noites africanas tenebrosas...,

povoadas de fantasmas e de medos,

povoadas das histórias de feiticeiros

que as amas-secas pretas,

contavam aos meninos brancos...



E os meninos brancos cresceram,

e esqueceram

as histórias...



Por isso as noites são tristes...

Endoidadas, tenebrosas, langorosas,

mas tristes... como o rosto gretado,

e sulcado de rugas, das velhas pretas...

como o olhar cansado dos colonos,

como a solidão das terras enormes

mas desabitadas...



É que os meninos brancos...,

esqueceram as histórias,

com que as amas-secas pretas

os adormeciam,

nas longas noites africanas...



Os meninos-brancos... esqueceram!...





1948-Outubro (de Poemas1966)





Rumo



É tempo, companheiro!

Caminhemos ...

Longe, a Terra chama por nós,

e ninguém resiste à voz

Da Terra ...



Nela,

O mesmo sol ardente nos queimou

a mesma lua triste nos acariciou,

e se tu és negro e eu sou branco,

a mesma Terra nos gerou!



Vamos, companheiro ...

É tempo


Que o meu coração

se abra à mágoa das tuas mágoas

e ao prazer dos teus prazeres

Irmão

Que as minhas mãos brancas se estendam

para estreitar com amor

as tuas longas mãos negras ...

E o meu suor

se junte ao teu suor,

quando rasgarmos os trilhos

de um mundo melhor!



Vamos!

que outro oceano nos inflama.. .

Ouves?

É a Terra que nos chama ...

É tempo, companheiro!

Caminhemos ...



Página publicada em novembro de 2008

 


MARIO PINTO DE ANDRADE

(1928-1990)


Nasceu em Ngolungo Alto (Angola). - 1929/1947: Estudos primário e secundário em Angola. - 1948: Viaja para Portugal; matricula-se no curso de Filologia Clássica da Faculdade de Letras de Lisboa. - 1949/52: Juntamente com Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Francisco José Tenreiro e Alda Espírito Santo, na Casa dos Estudantes do Império, no Clube Marítimo e no Centro de Estudos Africanos promove atividades culturais visando a redescoberta de África. - 1953: Com Francisco José Tenreiro organiza o Caderno de Poesia Negra de Expressão Portuguesa. - 1954:



Vai viver em Paris. - 1955: Redactor da revista Présence Africaine, é também o responsável pela organização do I Congresso de Escritores e Artistas Negros; acabará por se formar em Sociologia, na Sorbonne. - 1960: Com a prisão de Agostinho Neto pela PIDE, Mário assume a presidência do recém fundado MOVIMENTO POPULAR DE LIBERTAçãO DE ANGOLA (MPLA); Mário como presidente e Viriato da Cruz como secretário-geral transferem a direcção do MPLA de Luanda para Conakry. - 1961: Após a independência do Congo Belga, Mário e Viriato transferem a direcção do MPLA para Leopoldville. - 1962: Mário entrega a presidência do MPLA a Agostinho Neto, que acabara de fugir de Portugal. - 1965/67: Mário coordena a Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP). - 1973: É mandatado pelo Comitê de Coordenação Político-Militar do MPLA, para organizar os textos políticos de Amílcar Cabral. - 1974: Mário, com o seu irmão Joaquim funda a “Revolta Activa”, corrente que se opõe à liderança de Agostinho Neto no MPLA, exigindo a democratização do regime; os dois irmãos Pinto de Andrade e outros militantes são muito perseguidos e têm que abandonar Angola. - 1976/8:



Após a independência de Angola, Mário exila-se na Guiné-Bissau e ocupa o cargo de coordenador-geral do Conselho Nacional de Cultura. - 1978/80: Mário é o Ministro da Informação e Cultura da Guiné-Bissau. - 1980: Golpe de “Nino” Vieira na Guiné; Mário desloca-se para Cabo Verde. - Anos 80: Mário colabora na “História Geral da África” - 1990: A 26 de Agosto Mário falece em Londres.


Fonte: http://www.vidaslusofonas.pt/mario_pinto_andrade.htm





TEXTOS EM PORTUGUêS / TEXTOS EN ESPAÑOL





CANçãO DE SALABU



Nosso filho caçula

Mandaram-no pra S. Tomé

Não tinha documentos

Aiué!



Nosso filho chorou

Mamã enlouqueceu

Aiué!



Mandaram-no pra S. Tomé

Nosso filho partiu

Partiu no porão deles

Aiué!



Mandaram-no pra S. Tomé

Cortaram-lhe os cabelos

Não puderam amarrá-lo

Aiué!



Mandaram-no pra S. Tomé

Nosso filho está a pensar

Na sua terra, na sua casa

Mandaram-no trabalhar

Estão a mirá-lo, a mirá-lo

—Mamã, ele há-de voltar

Ah! A nossa sorte há-de virar

Aiué!



Mandaram-no pra S. Tomé

Nosso filho não voltou

A morte levou-o

Aiué!






TEXTOS EN ESPAÑOL





CANCIÓN DE SALABÚ



A nuestro hijo primogénito

Lo mandaron para S. Tomé.

No tenía documentos.

Aiué!



Nuestro hijo lloró.

Mamá enloqueció.

¡Aiué!



Lo mandaron para S. Tomé.

Nuestro hijo partió.

Paritó en el barco de ellos.

¡Aiué!



Lo mandaron para S. Tomé.

Le cortaron los cabellos.

No pudieron amarrarlo.

¡Aiuyé!



Lo mandaraon para S. Tomé.

Nuestro hijo está pensando

En su tierra, en su casa.

Lo mandan trabajar.

Están vigilándolo, vigilándolo.

Mamá, él ha de regresara.

¡Ah!, nuestra suerte ha de cambiar.

¡Aiué!



Lo mandaron para S. Tomé.

Nuestro hijo no volvió.

La muerte se lo llevó.

!Aiué!



Lo mandaron para S. Tomé.





Extraído de POETAS AFRICANOS CONTEMPORÁNEOS, org. Fayada Jamis, Virgilio Piñera, Armando Álvarez Bravo, Manuel Cabrera y David Fernándes. (Traductores). Madrid: Biblioteca Jucar, 1975.

 



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From: QUIM TROVADOR Sent: 25/04/2010 15:49
 


LUANDINO VIEIRA




José Luandino Vieira, nascido na Lagoa do Furadouro (Portugal) em 4 de Maio de 1935 é cidadão angolano pela sua participação no movimento de libertação nacional e contribuição no nascimento da República Popular de Angola. Passou toda a infncia e juventude em Luanda onde frequentou e terminou o ensino secundário. Trabalhou em diversas profissões até ser preso em 1959 (Processo dos 50), é depois libertado e posteriormente (1961) de novo preso e condenado a 14 anos de prisão e medidas de segurança. Transferido, em 1954, para o Campo de Concentração do Tarrafal, onde passou 8 anos, foi libertado em 1972, em regime de residência vigiada em Lisboa. Iniciou então a publicação da sua obra na grande maioria escrita nas diversas prisões por onde passou.



Depois da Independência foi nomeado para a Televisão Popular de Angola, que organizou e dirigiu de 1975 a 1978; para o D. O. R. (Departamento de Orientação Revolucionária do MPLA) que dirigiu até 1979; para o I. A. C. (Instituto Angolano de Cinema) que organizou e dirigiu de 1979 a 1984.



Membro fundador da União dos Escritores Angolanos exerceu a função de Secretário-Geral desde a sua fundação – 10-12-1975 – até 31-12-1980.



Foi Secretário-Geral Adjunto da Associação dos Escritores Afroasiáticos, de 1979 a 1984; e de novo Secretário-Geral da União dos Escritores Angolanos, de 1985 a 1992.



Após o colapso das 1.ªs eleições em 1992 e do recrudescimento da guerra civil, abandonou a vida pública, dedicando-se unicamente à literatura.

Fonte da biografia e foto: http://html.editorial-caminho.pt





CANçãO PARA LUANDA



A pergunta no ar

no mar

na boca de todos nós:

– Luanda onde está?

Silêncio nas ruas

Silêncio nas bocas

Silêncio nos olhos



– Xê

mana Rosa peixeira



– Mano

Não pode responder

tem de vender

correr a cidade

se quer comer!



“Ola almoço, ola amoçoéé

matona calapau

ji ferrera ji ferrerééé”

– E você

mana Maria quitandeira

vendendo maboque

os seios-maboque

gritando

saltando

os pés percorrendo

caminhos vermelhos

de todos os dias?

“maboque m’boquinha boa

dóce dócinha”



– Mano

não pode responder

o tempo é pequeno

para vender!



Zefa mulata

o corpo vendido

batom nos lábios

os brincos de lata

sorri

abrindo seu corpo



– seu corpo-cubata!

Seu corpo vendido

viajado

de noite e de dia.

– Luanda onde está?



Mana Zefa mulata

o corpo cubata

os brincos de lata

vai-se deitar

com quem lhe pagar

– precisa comer!



– Mano dos jornais

Luanda onde está?

As casas antigas

o barro vermelho

as nossas cantigas

trator derrubou?



Meninos nas ruas

caçambulas

quigosas

brincadeiras minhas e tuas

asfalto matou?

– Manos

Rosa peixeira



quitandeira Maria

você também

Zefa mulata

dos brincos de lata

– Luanda onde está?



Sorrindo

as quindas no chão

laranjas e peixe

maboque docinho

a esperança nos olhos

a certeza nas mãos

mana Rosa peixeira



quitandeira Maria

Zefa mulata

– os panos pintados

garridos

caídos

mostraram o coração.

– Luanda está aqui!



(1957)





NATAL



Branca roupa ao sol

Pirrulas na mulemba

cantam chuva.



Não há estrela-guia

sol-caju brilhando

pelos caminhos antigos

pés gretados batidos

vem todos.

... vovo Bartolomé enlanguescido

em carcomida cadeira acordado...



... sô Santo

subindo a calçada

a mesma calçada que outrora descia...



... Zito e Dimingas

no maximbombo da linha 4...



... Musunda amigo

com a firme vitória da sua alegria...



E vê

vêm também

cheirando a suor

as buganvílias

a den den



Pedro monangamba

olhos abertos de amor

na mão e cetro

a pá de trabalhador



Pascoal

(Ué ainda vivo velho Pascoal?!)

a vassoura de mateba

a farda cáqui

da Cmara Municipal.



De Calumbo

o sol do Cuanza



nos seios caju

docinha manga

trouxe Jana.



Vieram também

também vieram

algas verdes na garganta

os três magos da Ilha

– ngoma, reco-reco e violão!



Branca roupa ao sol

Pirrulas na mulemba

Não havia luar

porque a noite já não era

estrela-guia

e do ventre da mãe negra

o menino nascia.



(1960)





ESTRADA



Luanda Dondo vão,

cento e tal quilômetros

mangas e cajus

marcos brancos

meninos nus



Branco algodão

crescendo

corpos negros

na cacimba



O Lucala corre

confiante

indiferente à ponte que ignora



Verdes matas

Sangram vermelhas acácias

imbondeiros festejam

o minuto da flor anual



Na estrada

o rebanho alinha

pelo verde

verde capim



Adivinhados

caqui lacraus

de capacete giz



Meninos

se embalam

em mães velhas

de varizes:



Rios azuis

da longa estrada



E é fevereiro

sardões ao sol

Cassoalala



Eia Mucoso

tão vazio outrora

tão cheio agora

Adivinhados

permanecem

lacraus caqui

capacetes giz



Não param as colheitas





Que razão seriam

fevereiro

acácias sangrando vermelho

verdes sisais

cantando o parto

da única flor?



Não param as colheitas!



(1963)





BUGANVÍLIA



Branca a buganvília explode

no odiado muro em frente



à volta a vida berra crente

e o negro sangue estanca



vermelha a buganvília

rompe o muro da frente



(1962])





GIRASSÓIS



Tem girassóis amarelos

o meu quadrado de sol



a vida espancada passa

mas no quadrado de sol

aberto sobre o jardim

os girassóis amarelos

velhos

mostram o fim



(1962])





Página publicada em outubro de 2008


( coqueiro na ilha de S. Tomé )

CAETANO DE COSTA ALEGRE

(26 de Abril de 1864 - 18 de Abril de 1890)



Manuel Ferreira, das Ilhas São Tomé e Príncipe, dava a seu conterrneo Caetano de Costa Alegre (26 de Abril de 1864 - 18 de Abril de 1890) o título de "criador da negritude em poesia", com versos assim: "Ah! Pálida mulher, olha, a noite é negra e tem milhões de estrelas,/ o dia é belo e branco e tem apenas uma".
Antonio Olinto



CANTARES SANTOMENSES

(A meu tio Jerônimo José da Costa)



Branca a espuma e negra a rocha,

Qual mais constante há-de ser,

A espuma indo e voltando,

A rocha sem se mexer?



Não creias que em teu jazigo

Alguém parta o coração,

No mundo quem morre, morre,

Quem cá fica come pão.



Não me dizem quanto tempo

Tenho ainda que viver,

Ficava ao menos sabendo

Quando finda o meu sofrer.



Se eu me casasse contigo,

Fazia um voto de ferro,

De deixar-te unicamente

No dia do meu enterro.



Todos me dizem: “esquece

Essa paixão, que te abrasa”.

Que serve fechar a porta

Ao fogo que tenho em casa?



Não havia tanta cara

De asno, de tolo e pedante,

Se falasse, quem censura,

Com um espelho adiante.



Brotam espinhos da rosa,

O incêndio brota do lume.

A traição brota das juras,

Brota do amor o ciúme.



Numa loja conhecida

O que é cem custa duzentos,

Levam dinheiro em fazendas

E o tempo nos cumprimentos.



Macaco, chamaste tolo

Ao meu pequeno sagüi.

Também queria que ouvisses

O que ele disse de ti.



Por teu desdém não me mato,

Não faço tamanha asneira,

Se o meu amor tu não queres,

Há muita gente que o queira.



Quem pode num campo vasto

O joio apartar dos trigos?

Quem conhece dentre os falsos

Os verdadeiros amigos?





A NEGRA



Negra gentil, carvão mimoso e lindo

Donde o diamante sai,

Filha do sol, estrela requeimada,

Pelo calor do Pai,



Encosta o rosto, cndido e formoso,

Aqui no peito meu,

Dorme, donzela, rola abandonada,

Porque te velo eu.



Não chores mais, criança, enxuga o pranto,

Sorri-te para mim,

Deixa-me ver as pérolas brilhantes,

Os dentes de marfim.



No teu divino seio existe oculta

Mal sabes quanta luz,

Que absorve a tua escurecida pele,

Que tanto me seduz.



Eu gosto de te ver a negra e meiga

E acetinada cor,

Porque me lembro, ó Pomba, que és queimada

Pelas chamas do amor;



Que outrora foste neve e amaste um lírio,

Pálida flor do vale,

Fugiu-te o lírio: um triste amor queimou-te

O seio virginal.



Não chores mais, criança, a quem eu amo,

Ó lindo querubim,

O amor é como a rosa, porque vive

No campo, ou no jardim.



Tu tens o meu amor ardente, e basta

Para seres feliz;

Ama a violeta que a violeta adora-te

Esquece a flor-de-lis.





PARA UM LEQUE





Se eu lhe fosse depor, minha senhora,

Por entre estas mentiras cor de aurora

Uma verdade sã e proveitosa,

Chamava-lhe vaidosa!

E, faça-me favor,

Não encrespe esse olhar acostumado

Ao falso galanteio delicado

E a finezas de amor.



II



Eu sei perfeitamente que Vocência

Possui a verve, a fina inteligência.

Que eu...não admiro, e toda a gente adora,

Duma mulher doutora.

Portanto vai então

Achar-me pouco amável no que digo,

Mas, por fim, há-de concordar comigo

E dar-me até razão.



III



Senão Vocência que me diga, franca,

Para que serve numa folha branca:

“A senhora é rainha da beleza;

Em graça e gentileza,

Um cisne a flutuar

Num lago não a iguala. Encanta, prende,

Como grades de ferro, a luz que esplende

Do seu profundo olhar”?



IV



Enfim, essas tolices que descubro

No leque, e que seu lindo lábio rubro

Agradece aos autores discretamente

Dizendo-lhes, ridente:

– Que bonitos que estão

Os versos!... Eu bem sei que não mereço

O que neles me diz, pois me conheço.

Mas...toque. E estende a mão



V



Suponha agora (é só por um momento)

Que esse escuro cabelo esparso ao vento,

Pelo vento é levado; em outros termos,

Para nos entendermos,

Suponha que ele cai,

Que o pouco que ficou se torna neve

E que a pele gentil do rosto breve

Encarquilhando vai!



A minha cor é negra, Indica luto e pena;

É luz, que nos alegra,

A tua cor morena.

É negra a minha raça,

A tua raça é branca, Tu és cheia de graça,

Tens a alegria franca,

Que brota a flux do peito

Das cndidas crianças.

Todo eu sou um defeito,

Sucumbo sem esperanças,

E o meu olhar atesta

Que é triste o meu sonhar,

Que a minha vida é mesta

E assim há-de findar!

Tu és a luz divina,

Em mil canções divagas,

Eu sou a horrenda furna

Em que se quebram vagas!...

Porém, brilhante e pura,

Talvez seja a manhã

Irmã da noite escura!

Serás tu minha irmã?!...





Página publicada em setembro de 2008

 


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From: QUIM TROVADOR Sent: 25/04/2010 15:55
 


MARCELINO DOS SANTOS


Marcelino dos Santos (Lumbo, 20 de Maio de 1929) é um político e poeta moçambicano. Foi membro fundador da Frente de Libertação de Moçambique, onde chegou a vice-presidente. Depois da independência de Moçambique, Marcelino dos Santos foi o primeiro Ministro da Planificação e Desenvolvimento, cargo que deixou em 1977 com a constituição do primeiro parlamento do país (nessa altura designado “Assembleia Popular”), do qual foi presidente até à realização das primeiras eleições multipartidárias, em 1994.



Com os pseudónimos Kalungano e Lilinho Micaia tem poemas seus publicados no Brado Africano e em duas antologias publicadas pela Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa. Com o seu nome oficial, tem um único livro publicado pela Associação dos Escritores Moçambicanos, em 1987, intitulado “Canto do Amor Natural".




TEXTOS EM PORTUGUêS / TEXTOS EN ESPAÑOL





NAMPIALI



Verde carmim azul e violeta

e nós

marchando no planalto



Em baixo

o vale

e as machambas de Nachinhoco



Mais longe

nas encostas do Nampiali

as árvores

verde carmim azul e violeta

enchem os nossos olhos



É já o por do sol



Vamos marchando

e as vozes vão cantando



“somos soldados

da FRELIMOOO...”



Verde carmim azul e violeta

e nós

marchando no planalto

seguindo sempre para além



verde carmim azul e violeta



Aqui os portugueses foram esmagados



Aqui os portugueses não voltarão



Agora nascem os campos de produção



Nós

marchando no planalto

seguindo sempre para a frente

e as vozes cantando



“Decididos

Nós lutaremos...”



Nós

marchando no planalto

seguindo para além



e sempre nos nossos olhos

as cores suaves e doces

de verde carmim azul e violeta

na paisagem quente

da terra livre de Moçambique





SONHO DE MãE NEGRA



Mãe negra

Embala o seu filho

E esquece

Que o milho já a terra secou

Que o amendoim ontem acabou.



Ela sonha mundos maravilhosos

Onde o seu filho irá à escola

à escola onde estudam os homens



Mãe negra

Embala o seu filho

E esquece

Os seus irmãos construindo vilas e cidades

Cimentando-as com o seu sangue

Ela sonha mundos maravilhosos

Onde o seu filho correria na estrada

Na estrada onde passam os homens



Mãe negra

Embala o seu filho

E escutando

A voz que vem do longe

Trazida pelos ventos



Ela sonha mundos maravilhosos

Mundos maravilhosos

Onde o seu filho poderá viver.





É PRECISO PLANTAR



É preciso plantar

mamã

é preciso plantar



é preciso plantar

nas estrelas

e sobre o mar



nos teus pés nus e pelos caminhos



é preciso plantar



nas esperanças proibidas

e sobre as nossas mãos abertas



na noite presente

e no futuro a criar



por toda a parte

mamã



é preciso plantar



a razão

dos corpos destruídos

e da terra ensanguentada

da voz que agoniza

e do coro de braços que se erguem



por toda a parte

por toda a parte

por toda a parte mamã



por toda a parte

é preciso plantar

a certeza

do amanhã feliz

nas caricias do teu coração

onde os olhos de cada menino

renovam a esperança



sim mamã

é preciso

é preciso plantar



pelos caminhos da liberdade



a nova árvore

da Independência Nacional.






TEXTOS EN ESPAÑOL

Traducción de XOSÉ LOIS GARCÍA





NAMPIALI



Verde carmín azul y violeta

y nosotros

marchando por la alta llanura



Abajo

el Valle

y las heredades de Nachinhoco



Más lejos

en las laderas del Nampiali



los árboles

verdes carmín azul y violeta

llenas nuestros ojos



Y ya al ponerse el sol

Vamos marchando

y las voces van cantando



“somo soldados

del FREMIMOOO...”



Verde carmín azul y violeta

y nosotros

marchando por la alta llanura

siempre hacie más allá.



verde carmín azul y violeta



Aquí los portugueses fueron aplastados



Aquí los portugueses no volverán



Ahora ncen los campos de producción



Nosotros

marchando por la alta montaña

siguiendo siempre hacia adelante

y las voces cantando



“Decididos

Nosotros lucharemos...”



Nosotros

marchando por la alta montaña

hacia más allá



y siempre em nuestros ojos

los colores suaves y dulces

de verde carmín azul y violeta

en el paisaje caliente

de la tierra Libre de Mozambique





Poemas publicados originalmente en la revista HORA DE POESIA, n. 19-20, Barcelona, sin fecha. Ejemplar cedido para la Biblioteca Nacional de Brasilia por Aricy Cuvello, y la reproducción con la debida anuência del traductor.



Página publicada em março de 2008 Poesia moçambicana


Fonte: http://nescritas.nletras.com/
poetasdeexpport/PoetasExpPort

 



CARLOS SCHWARTZ


José Carlos Schwarz (Bissau, 6 de Dezembro, 1949 – Havana, 27 de Maio, 1977) foi um poeta e músico da Guiné-Bissau. Ele é amplamente reconhecido como um dos mais importantes e notáveis músicos da Guiné-Bissau.[1]

Ele escreveu em português e francês, porém cantava em crioulo. Em 1970 ele formou o "Cobiana Djazz", banda formada por um grupo de amigos. Após a independência da Guiné-Bissau, Schwarz tornou-se o diretor do Departamento de Artes e Cultura, e também o responsável pela política de infncia guineense. Em 1977 iniciou sua carreira na Embaixada da Guiné-Bissau em Cuba. No dia 27 de Maio do mesmo ano, Schwarz morreu em acidente de avião próximo a Havana.







DO QUE CHORA A CRIANçA

(versão portuguesa)



Do que chora a criança?

É dor no seu corpo

Do que chora a criança?

É sangue que cansou de ver



Um pássaro grande chegou

Com ovos de fogo

0 pássaro grande veio

Com os ovos da morte



Caçadores desconhecidos

Enganados metralharam a tabanca

Caçadores, pretos como nós

Enganados metralharam a bolanha



Queimou-se o mato

Queimaram-se as casas

Perdurou a dor na nossa alma





ANTES DE PARTIR







Antes de partir

Encherei os meus olhos, a minha memória

Do verde (verde, verde!) do meu País

Para que quando tomado pela saudade

Verde seja a esperança

Do regresso breve

Antes de partir

Encherei os meus ouvidos, a minha memória

Do palpitar que esmorece, enquanto a noite

Cresce sobre a cidade e no campo

Feito o silêncio dos homens e dos rádis...





CANTA CAMARADA



Canta camarada

Deixa que o teu sonho verdade

Flua límpido nos anseios da tua voz quente

Pois este é o teu dever, o teu direito.





Canta camarada

Que a recordação da tua dor

Seja como a terra revolvida

Em cada época, para a sementeira.





Canta camarada

Apenas alguns nomes, para que seja exaltado o anónimo

Apenas os mortos, porque os vivos

Ainda podem desmerecer da nossa gratidão.





Canta camarada

Pois é a única benesse

Que te reservaste na oferta da tua juventude

Em Holocausto no altar da revolução.









Página publicada em outubro de 2009
 

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From: QUIM TROVADOR Sent: 25/04/2010 15:57
 


JOãO MAIMONA


nasceu em 1955, em Quibocolo, município de Maquela do Zombo, na província de Uíge. Em 1961, refugiou-se na República do Zaire. Estudou Humanidades Científicas em Kinshasa e em 1975 ingressou na Faculdade de Ciências, regressando a seu país em 1976. Dois anos depois, fixou residência em Huambo, onde se licenciou em Medicina Veterinária. É membro-fundador da Brigada Jovem de Literatura do Huambo e membro da União dos Escritores Angolanos.



AS MURALHAS DA NOITE



A mão ia para as costas da madrugada.

As mulheres estendiam as janelas da alegria

nos ouvidos onde não se apagavam as alegrias.



Entre os dentes do mar acendiam-se braços.



Os dias namoravam sob a barca do espelho.

Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia.

E da chuva de barcos chegavam colchões,

camas, cadeiras, manadas de estradas perdidas

onde cantavam soldados de capacetes

por pintar no coração da meia-noite.



Eram os barcos que guardavam as muralhas

da noite que a mão ouvia nas costas

da madrugada entre os dentes do mar.


MEMÓRIA




Baloiçando nos escombros de teu itinerário

saberás que os gados constroem estradas.

E quando a mão deslizar pela margem

das cicatrizes que se afundam na noite

saberás que a tua mão viaja para a

colina dos dias sem escombros

e saberás que no berço da noite jaz a luz

drogada e ouvida pela cruz sobre quem viajaste.





ARTE POÉTICA



Que erosão

no choque genésico das marés

de encontro às pedras habitadas.



Cai areia na areia.



Assim o gasto da palavra

limando os duros conformismos

libertando as verdades mais remotas

tão necessárias ao fruir dos gestos.


AS MURALHAS DA NOITE

A mão ia para as costas da madrugada.

As mulheres estendiam as janelas da alegria

nos ouvidos onde não se apagavam as alegrias.



Entre os dentes do mar acendiam-se braços.



Os dias namoravam sob a barca do espelho.

Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia.

E da chuva de barcos chegavam colchões,

camas, cadeiras, manadas de estradas perdidas

onde cantavam soldados de capacetes

por pintar no coração da meia-noite.



Eram os barcos que guardavam as muralhas

da noite que a mão ouvia nas costas

da madrugada entre os dentes do mar.



A SENTINELA VINHA



A sentinela vinha. Cruzava os pés à porta

do meu jardim.



A sentinela da porta

das portas do meu jardim vinha

à hora primitiva.



Chegava. Cuspia na minha relva.

Como para render homenagem

ao meu sangue. É tão fácil

fazer a retrospectiva!



A sentinela vinha. Cruzava os pés à porta

do meu jardim. Cuspia na minha relva.

Enumerava as portas do jardim.

Perdido em declamações que acabavam

à porta das portas do jardim

não recordava os seu filhos. Suas trevas.

Seus caminhos.





Ó ANGOLA MEU BERçO DO INFINITO




Era o seu poema. A porta das portas do jardim.

Ó Angola meu berço do Infinito

meu rio da aurora

minha fonte do crepúsculo

Aprendi a angolar

pelas terras obedientes de Maquela

(onde nasci)

pelas árvores negras de Samba-Caju

pelos jardins perdidos de Ndalatandu

pelos cajueiros ardentes de Catete

pelos caminhos sinuosos de Sambizanga

pelos eucaliptos das Cacilhas

Angolei contigo nas sendas do incêndio

onde os teus filhos comeram balas

e

regurgitaram sangue torturado

onde os teus filhos transformaram a epiderme

em cinzas

onde das lágrimas de crianças crucificadas

nasceram raças de cantos de vitória

raças de perfumes de alegria

E hoje pelos ruídos das armas

que ainda não se calaram pergunto-me:

Eras tu que subias montanhas de exploração?

que a miséria aterrorizava?

que a ignorncia acompanhava?

que inventariavas os mortos

nos campos e aldeias arruinados

hoje reconstituídos nos escombros?

A resposta está no meu olhar

e

nos meus braços cheios de sentidos



(Angola meu fragmento de esperança)

deixai-me beber nas minha mãos

a esperança dos teus passos

nos caminhos de amanhã

e

na sombra d'árvore esplendorosa.)


A TORRE DA NOITE

a Joana Malata

deixarei a semana forjar
raparigas de Natal
o Natal que se une à rochas.

deixarei amontoar em minhas

mãos dóceis
esqueletos do mar.

deixarei a torre a noite
chorar e esperar
o ar enchendo a morte do mar
pelos brinquedos do céu
até que os dias se unam às noites

e deixarei a folhar escutar
à porta fechada
a luz sombria da fornalha.


QUANDO VEJO AS MINHAS PERNAS

quando canto os seios da velha mulher de prazer
em mim nasce a noite da palavra que não diz

despeço-me do rosto solar do oceano que diz
quando algo cresce em areias de meu corpo

porquanto a submemória das plantas
quando as plantas se rompem na cauda da luz


e quando as vacas olham o rosto do pastor
um bando de crianças estende as misérias do pastor

e assim saúdam as minhas mãos
os gritos cronológicos
dos seios da velha mulher de prazer.

lembro-me dos seios na noite do barco.





A NELSON MANDELA



(Descer os degraus da Humanidade. Ver o mar escuro do fenómeno

errante do atrito de armas. Sentir com as palavras presas nos lábios

o perfume da discriminação distribuído a preço derrisório em Durban,

Pretória, Soweto...Olhar na propagação de sinais sombrios o desenho

da desunião e de outras dores inspiradas que nos vigiam enquanto

os homens degrau a degrau sobem o horizonte cruel. E assim surgimos

na árvore do quotidiano, quotidiano vivo, ingrediente da nossa tragédia.)







Página publicada em agosto de 2008


FRANCISCO JOSÉ TENREIRO


(1921-1963)

Nasceu na ilha de São Tomé donde partiu, ainda novo, para o Continente onde estudou em Lisboa. Foi professor no Instituto de Ciências Sociais e Política Ultramarina.

Obras: Ilha do Nome Santo, "Novo Cancioneiro", Coimbra, 1942; Obra Poética de Francisco José Tenreiro, 1967; A Ilha de São Tomé-Estudo Geográfico, Lisboa, 1961




CORAçãO



Caminhos trilhados na Europa

de coração em África.

Saudades longas de palmeiras vermelhas verdes amarelas

tons fortes da paleta cubista

que o sol sensual pintou na paisagem;

saudade sentida de coração em África



ao atravessar estes campos do trigo sem bocas

das ruas sem alegria com casas cariadas

pela metralha míope da Europa e da América

da Europa trilhada por mim negro de coração em África.

De coração em África na simples leitura dominical

dos períodos cantando na voz ainda escaldante da tinta

e com as dedadas de miséria dos ardinas das cities

[boulevards e baixa da Europa

trilhada por mim Negro e por ti ardina

cantando dizia eu em sua voz de letras as melancolias do

[orçamento que não equilibra

do Benfica venceu Sporting ou não

ou antes ou talvez seja que desta vez vai haver guerra

para que nasçam flores roxas de paz

com fitas de veludo e caixões de pinho;

oh as longas páginas do jornal do mundo

são folhas enegrecidas de macabro clue

com mourarias de facas e guernicas de toureiros.

Em três linhas (sentidas saudades de África) –

Mac Gee cidadão da América e da democracia

Mac Gee cidadão Negro e da negritude

Mac Gee cidadão Negro da América e do Mundo Negro

Mac Gee fulminado pelo coração endurecido feito cadei-

[ra eléctrica

(do cadáver queimado de Mac Gee do seu coração em

[África e sempre vivo

floriram flores vermelhas flores vermelhas flores vermelhas

e também azuis e também verdes e também amarelas

na gama policroma da verdade do Negro

na inocência de Mac Gee) – ;

três linhas no jornal como falso cartão de pêsames.

Caminhos trilhados na Europa

de coração em África.

De coração em África com o grito seiva bruta dos poemas

[de Guillén

de coração em África com a impetuosidade viril de I tôo

[am América

de coração em áfrica com as árvores renascidas em

[todas estações nos belos poemas de Diop

de coração em África nos rios antigos que o Negro

[conheceu e no mistério do Chaka-Senghor

de coração em África contigo amigo Joaquim quando em

[versos incendiários

cantaste a África distante do Congo da minha saudade do

[Congo de coração em África

de Coração em África ao meio-dia do dia de coração em

[África

com o Sol sentado nas delícias do zênite

reduzindo a pontos as sombras dos Negros.

Amodorrando no próprio calor da reverberação os mos-

[quitos da nocturna picadela.

De coração em África em noites de vigília escutando o

[olho mágico do rádio

e a rouquidão sentimento das inarmonias de Armstrong.

De coração em África em todas as poesias gregárias ou

[escolares que zombam

e zumbem sob as folhas de couve da indiferença

mas que têm a beleza das rodas de crianças com papagaios

[garridos

e jogos de galinha branca vai até França

que cantam as volutas dos seios e das coxas das negras e

[mulatas

de olhos rubros como carvões verdes acesos.

De coração em África trilho estas ruas nevoentas da cidade

de África no coração e um ritmo de be bop be nos lábios

enquanto que à minha volta sussura olha o preto (que

[bom) olha um negro (óptimo) olha um mulato

[(tanto faz) olha um moreno (ridículo)

e procuro no horizonte cerrado da beira-mar

cheiro de maresias distantes e areias distantes

com silhuetas de coqueiros conversando baixinho à brisa

[da tarde

De coração em África na mão deste Negro enrodilhado e

[sujo de beira-cais

vendendo cautelas com a incisão do caminho da cubata

[perdida na carapinha alvinitente;

de coração em África com as mãos e o pés trambolhos

[disformes

e deformados como os quadros de Portinari dos

[estivadores do mar

e dos meninos ranhosos viciados pelas olheiras fundas

[das fomes de Pomar

vou cogitando na pretidão do mundo que ultrapassa a

[própria cor da pele

dos homens brancos amarelos negros ou às riscas

e o coração entristece à beira-mar da Europa

da Europa por mim trilhada de coração em África;

e chora fino na arritmia de um relógio cuja corda vai estalar

soluça a indignação que fez os homens escravos dos

[homens

mulheres escravas de homens crianças escravas de

[homens negros escravos dos homens

e também aqueles que ninguém fala e eu Negro não

[esqueço

como os pueblos e os xavantes os esquimós os ainos eu

[sei lá

que são tantos e todos escravos entre si.

Chora coração meu estala coração meu enternece-te meu

[coração

de uma só vez (oh órgão feminino do homem)

de uma só vez para que possa pensar contigo em África

na esperança de que para o ano vem a monção torrencial

que alagará os campos ressequidos pela amargura da

[metralha e adubados pela cal dos ossos de Taszlitzki

na esperança de que o Sol há-de prenhar as espigas de

[Trigo para os meninos viciados

e levará milho às cabanas destelhadas do último rincão da

[Terra

distribuíra o pão o vinho e o azeite pelos alíseos;

na esperança de que às entranhas hiantes de um menino

[antípoda

haja sempre uma túlipa de leite ou uma vaca de queijo

[que lhe mitigue a sede da existência.

Deixa-me coração louco

Deixa-me acreditar no grito de esperança lançado pela

[paleta viva de Rivera

E pelos oceanos de ciclones frescos das odes de Neruda;

deixa-me acreditar que do desespero másculo de Picasso

[sairão pombas

que como nuvens voarão os céus do mundo de coração

[em África.





RITMO PARA A JÓIA DAQUELA ROçA



Dona Jóia dona

dona de lindo nome

tem um piano alemão

desafinando de calor.



Dona Jóia dona

do nome de Sum Roberto

está chorando nos seus olhos

de outras terras saudades.



Dona Jóia dona

dona de tudo que é lindo:

do oiro cacaueiro

do café de frutos vermelhos

das brisas da nossa ilha.



Dona Jóia dona

dona de tudo que é triste:

meninos de barriga oca

chupando em peitos chatos;

negros de pezão grande

trabalhando pelos matos.



Ai! Dona Jóia,

dona de mim também –

Jesus, Maria, José

Credo! –

não me olhe assim-sim

que me pára o coração!





CANçãO DO MESTIçO



Mestiço



Nasci do negro e do branco

e quem olhar para mim

é como que se olhasse

para um tabuleiro de xadrez:

a vista passando depressa

fica baralhando cor

no olho alumbrado de quem me vê.



Mestiço!



E tenho no peito uma alma grande

uma alma feita de adição.



Foi por isso que um dia

o branco cheio de raiva

contou os dedos das mãos

fez uma tabuada e falou grosso:

– mestiço!

a tua conta está errada.

Teu lugar é ao pé do negro.



Ah!

Mas eu não me danei...

e muito calminho

arrepanhei o meu cabelo para trás

fiz saltar fumo do meu cigarro

cantei alto

a minha gargalhada livre

que encheu o branco de calor!...



Mestiço!



Quando amo a branca

sou branco...

Quando amo a negra

sou negro.

Pois é...





FRAGMENTO DE BLUES

(A Langston Hughes)



Vem até mim

nesta noite de vendaval na Europa

pela voz solitária de um trompete

toda a melancolia das noites de Geórgia;

oh! mamie oh! mamie

embala o teu menino

oh! mamie oh! mamie

olha o mundo roubando o teu menino.



Vem até mim

ao cair da tristeza no meu coração

a tua voz de negrinha doce

quebrando-se ao som grave dum piano

tocando em Harlem:

– Oh! King Joe

King Joe

Joe Louis bateau Buddy Baer

E Harlem abriu-se num sorriso branco

Nestas noites de vendaval na Europa

Count Basie toca para mim

e ritmos negros da América

encharcam meu coração;

– ah! ritmos negros da América

encharcam meu coração!

E se ainda fico triste

Langston Hughes e Countee Cullen

Vêm até mim

Cantando o poema do novo dia

– ai! os negros não morrem

nem nunca morrerão!



...logo com eles quero cantar

logo com eles quero lutar

– ai! os negros não morrem nem

nem nunca morrerão!





MãOS



Mãos que moldaram em terracota a beleza e a serenidade do Ifé.

Mãos que na cera polida encontram o orgulho perdido do Benin.

Mãos que do negro madeiro extraíram a chama das estatuetas olhos de vidro

e pintaram na porta das palhotas ritmos sinuosos de vida plena:

plena de sol incendiando em espasmos as estepes do sem-fim

e nas savanas acaricia e dá flores às gramíneas da fome.

Mãos cheias e dadas às labaredas da posse total da Terra,

mãos que a queimam e a rasgam na sede de chuva

para que dela nasça o inhame alargando os quadris das mulheres

adoçando os queixumes dos ventres dilatados das crianças

o inhame e a matabala, a matabala e o inhame.



Mãos negras e musicais (carinhos de mulher parida) tirando da pauta da Terra

o oiro da bananeira e o vermelho sensual do andim.

Mãos estrelas olhos nocturnos e caminhantes no quente deserto.

Mãos correndo com o harmatan nuvens de gafanhotos livres

criando nos rios da Guiné veredas verdes de ansiedades.

Mãos que à beira-do-mar-deserto abriram Kano à atracção dos camelos da ventura

e também Tombuctu e Sokoto, Sokoto e Zária

e outras cidades ainda pasmadas de solenes emires de mil e mais noites!





Mãos, mãos negras que em vós estou pensando.



Mãos Zimbabwe ao largo do Indico das pandas velas

Mãos Mali do sono dos historiadores da civilização

Mãos Songhai episódio bolorento dos Tombos

Mãos Ghana de escravos e oiro só agora falados

Mãos Congo tingindo de sangue as mãos limpas das virgens

Mãos Abissínias levantadas a Deus nos altos planaltos:

Mãos de África, minha bela adormecida, agora acordada pelo relógio das balas!



Mãos, mãos negras que em vós estou sentindo!



Mãos pretas e sábias que nem inventaram a escrita nem a rosa-dos-ventos

mas que da terra, da árvore, da água e da música das nuvens

beberam as palavras dos corás, dos quissanges e das timbilas que o mesmo é

dizer palavras telegrafadas e recebidas de coração em coração.

Mãos que da terra, da árvore, da água e do coração tantã

criastes religião e arte, religião e amor.



Mãos, mãos pretas que em vós estou chorando!





CANTO DE OBÓ



O sol golpeia as costas do negro

e os rios de suor ficam correndo.



Ardor!



Os olhos do branco

como chicotes

ferem o mato que está gritando...



Só o água sussurante/calmo

corre prao mar

tal qual a alma da terra!

topo





O MAR



A voz branca que está no mato

perde-se na imensidão do mar.

Lá vai!

O sol bem alto

é uma atrapalhação de cor.

-Abacaxi safo nona

carregozinho do barco!...



Um tubarão passando

é um risco de frescura.

Lá vai!



O barco deslizando

só com a vontade livre e certa do negro

lá vai!

........




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From: QUIM TROVADOR Sent: 25/04/2010 15:58
 



AGOSTINHO NETO

A Renúncia Impossível



Não creio em mim
Não existo
Não quero eu não quero ser


Quero destruí-me
Atirar de pontes elevadas
E deixar-me despedaçar
Sobre as pedras duras das calçadas


Pulverizar o meu ser
Desaparecer
Não deixar sequer traço de passagem
Pelo mundo


Quero que o não-eu
Se aposse de mim


Mais do que um simples suicídio
Quero que esta minha morte
Seja uma verdadeira novidade histórica
Um desaparecimento total
Até mesmo no tempo
E se processe a História
E o mundo continue
Como se eu nunca tivesse existido
Como se nenhuma obra tivesse produzido
Como se nada tivesse influenciado na vida
Como se em vez de valor negativo
Eu fosse zero


Quero ascender
Elevar-me até atingir o zero
E desaparecer
Deixa-me desaparecer


Mas antes vou gritar
Com toda a força dos meus pulmões
Para que o mundo oiça:


Fui eu quem renunciou a Vida!
Podeis a continuar ocupar o meu lugar
Vós os que mo roubastes


Aí tendes o mundo todo para vós
Para mim nada quero
Nem riqueza nem pobreza
Nem alegria nem tristeza
Nem vida nem morte
Nada


Não sou Nunca fui
Renuncio-me
Atingi o zero


E agora
Vivei cantai chorai
Casai-vos matai-vos embriagai-vos
Dai sêmolas aos pobres
Nada me pode interessar
Que eu não sou
Atingi o zero


Não contem comigo
Para vos servir as refeições
Nem para cavar os diamantes
Que vossas mulheres irão ostentar em salões
Nem para cuidar das vossas plantações
De algodão e café
Não contem com amas
Para amamentar os vossos filhos sifilíticos
Não contem com operários
De segunda categoria para fazer o trabalho de que vos orgulhais
Nem com soldados inconscientes
Para gritar com o estômago vazio
Vivas ao nosso trabalho de civilização
Nem com lacaios
Para vos tirarem os sapatos
De madrugada
Quando regressardes de orgias nocturnas
Nem com pretos medrosos
Para vos oferecer vacas
E vender molho a tostão
Nem com corpos de mulheres
Para vos alimentar de prazeres
Nos ócios da vossa abundncia imoral


Não contem comigo
Renuncio-me
Eu atingi o zero


E agora podeis queimar
Os letreiros medrosos
Que as portas dos bares hotéis e recintos públicos
Gritam o vosso egoísmo
Nas frases «SÓ PARA BRANCOS» OU coloured men only»
Negros aqui Brancos acolá


E agora podeis acabar
Com os miseráveis bairros de negros
Que vos atrapalham a vaidade
Vivei satisfeitos sem colour lines
Sem terdes que dizer aos fregueses negros
Que os hotéis estão abarrotados
Que não há mais mesas nos restaurantes
Banhai-vos descansados
Nas vossas praias e psicinas
Que nunca houve negros no mundo
Que sujassem as águas
Ou os vossos nojentos preconceitos
Com a sua escura presença


Dissolvei a Ku-klux-klan
Que já não há negros para linchar!


Porque hesitais agora!
Ao menos tendes oportunidade
Para proclamardes democracias
Com sinceridade


Podeis inventar uma nova história
Inclusivamente podeis inventar uma nova mística
Direis por exemplo: No princípio NÓS criámos o mundo
Tudo foi feito por NÓS
E isso nada me interessa


Ah!
Que satisfação eu sinto por ver-vos alegres no vosso orgulho
E loucos na vossa mania de superioridade


Nunca houve negros!
A África foi construída só por vós
A América foi colonizada só por vós
A Europa não conhece civilizações africanas
Nunca houve beijos de negros sobre faces brancas
Nem um negro foi linchado
Nunca matastes pretos a golpes de cavalomarinho
Para lhes possuirdes as mulheres
Nunca extorquistes propriedades a pretos
Não tendes nunca tivestes filhos com sangue negro
Ó racistas de desbragada lubricidade
Fartai-vos agora dentro da moral!


Que satisfação eu sinto
Por não terdes que falsear os padrões
Morais
Para salvaguardar
O prestigio a superioridade e o estômago dos vossos filhos


Ah!
O meu suicídio prazer
De ver-vos bem instalados no vosso mundo
Sem necessidade de jogos falsos


Eu elevado até o Zero
Eu transformado no Nada-historico
Eu no iniciodos tempos
Eu-Nada confundir-me com vós-Tudo
Sou o verdadeiro Cristo da Humanidade!


Não há nas ruas de Luanda
Negros descalços e sujos
A pôr nódoas nas vossas falsidades de colonização


Em Lourenço Marques
Em Nova York em Leopoldville
Em Cape Town
Gritam pelas ruas
Fogueteando alegria nos ares


-Não há negros nas ruas!
Nunca houve
Não há negros preguçosos
A deixar os campos por cultivar
E renitentes á escravização
Já não há negros para roubar
Toda riqueza representa agora o suor do rosto
E o suor do rosto é a poesia da vida
Viva a poesia da vida1
Viva!


Não existe música negra
Nunca houve batuques nas florestas do Congo
Quem falou em spirituals?
Os salões enchem-se de Debussy Struss Korsakoff
Que não há selvagens na terra
Viva a civilização dos homens superiores
Sem manhas negróides a perturbar-lhe a estética!
Viva!


Nunca houve descobrimentos
A África foi criada com o mundo
O que é a colonização?
O que são massacres de negros?
O que são os esbulhos de propriedade?
Coisas que ninguém conhece


A história está errada
Nunca houve escravatura
Nunca houve domínio das minorias
Orgulhosas da sua força


Acabai com as cruzadas religiosas
A fé está espalhada por todo mundo
Sobre a terra só há cristãos
VÓS sois todos cristãos


Não há infiéis por converter
Escusai de imaginar mais infidelidades religiosas
Para justificar
Repugnantes actos de barbarismo


Não necessitais enviar mais missionários
A África
Nem aos bairros de negros
Nunca houve mahamba
Nem concepções religiosas diferentes
Nunca houve religiosos a auxiliar a ocupação militar


Acabai com os missionários
Os seus milagres
Inventados para justificar ambições e vaidades


Possuis tudo TUDO
E sois todos irmãos


Continuai com os vossos sistemas políticos
Ditaduras democracias isso é convosco
Explorai o proletariado
Matai-vos uns aos ouros
Lutai pela glória lutai pelo poder
Criai minorias fortes
Apadrinhai os afilhados dos vossos amigos
Criai mais castas
Aburguesai as ideias
E tudo sem a complicação
De verdes intrusos
Imiscuir-se na vossa querida
E defendida civilização dos homens
Privilegiados


E agora
Homens irmãos
Dai-vos as mãos gritai-vos a vossa alegria de serdes sós
SÓS!
ÚNICOS habitantes da terra


EU atingi o zero


Isto s implica extraordinariamente vossa ética
Ao menos
Não percais a ocasião para serdes honestos


Se houver terramotos
Calamidades cheias ou epidemias
Ou terras a defender da invasão das águas
Ou motores parados em lamas africanas
Raios partam
Já não tereis de chamar-me
Para acudir ás vossas desgraças
Para reparar os vossos desastres
Ou para carregar com a culpa das vossas incúrias
Ide para o diabo!


Eu não existo
Palavra de honra que nunca existi atingi o zero
O nada


Abençoada a Hora
Do meu super-suicidio
Para vós
Homens que construís sistemas morais
Para enquadrar imoralidades


O sol brilha só para vós
A lua reflecte luz só para vós
Nunca houve esclavagistas
Nem massacres
Nem ocupações da África


Como até a história
Se transforma num Tratado de Moral
Sem necessidade de arranjos apressados!


Os pretos dos cais não existem
Nunca foram ouvidos cantos dolentes
Misturados com a chiadeira do guindastes
Nunca pisaram os caminhos do mato
Carregados com cem quilos ás costas
São os motores que se queimam sob as cargas


Ó pretos submissos humildes ou tímidos
Sem lugar nas cidades ou nos escaninhos da honestidade
Ou nos recintos da força
Dançarinos com a alma poisada no sinal menos
Polígamos declarados
Dançarinos de batuques sensuais
Sabei que subistes todos de valor
Atingistes o Zero sois Nada
E salvastes o Homem


Acabou-se o ódio
E o trabalho de civilização
E a náusea de ver meninos negros
sentados na escola
ao lado dos meninos de olhos azuis
e as extorsões e compulsões
e as palmatoadas e torturas
para obrigar inocentes a confessar crimes
e medos de revolta
e as complicadas demarches politicas
para iludir as almas simples


Acabaram-se as complicações sociais!


Atingi o zero
Cheguei á hora do inicio do mundo
E resolvi não existir
Cheguei ao Zero-Espaço
Ao nada-tempo
Ao Eu coincidente com vós-Tudo


E o que é mais importante
Salvei o mundo!





1949






Original dactilografado. Arquivado fls.204 a 209/210ª215

YOLANDA MARAZZO



Yolanda Marazzo Lopes da Silva, poeta e escritora de língua portuguesa, nasceu em São Vicente, Cabo Verde, África, em 1926. Deixou Angola em 1975 na sequência da descolonização e reside hoje em Lisboa. • Colaborou na Claridade, Cabo Verde.



BARCOS

"Nha terra é quel piquinino
É São Vicente é que di meu"

Nas praias
Da minha infncia
Morrem barcos
Desmantelados.

Fantasmas
De pescadores
Contrabandistas
Desaparecidos
Em qualquer vaga
Nem eu sei onde.

E eu sou a mesma
Tenho dez anos
Brinco na areia
Empunho os remos...
Canto e sorrio...
A embarcação
Para o mar!
É para o mar!...

E o pobre barco
O barco triste
Cansado e frio
Não se moveu...


CONTRASTE

A minha alma trema em tuas mãos
debruçada na varanda desta tarde

Silêncio da cor em teus contornos
o adeus do mar dentro de mim

Para além do ilhéu dos pássaros da ilha
o sol morre aos poucos devagar

A minha alma treme em tuas mãos
debruçada na varanda desta tarde

Vejo os barcos ao longe na baía
as lanchas negras dos trabalhadores
a torre da capitania ao lusco-fusco

Lentamente uma a uma na cidade
vão acendendo as luzes da cidade

Na fábrica de bolacha do Matos
na padaria do Jonas depois

Só no cemitério ao lado é tudo escuro...

Branqueiam ainda as campas dos mortos
e os nomes vou ler à hora do sol
mas agora fazem medo à minha infncia

Em casa dos meus vizinho perto
nh´ugénia de Sena e nhã Nê Grande
acenderam os candeeiros de petróleo

(Cambambe, 1969)



DERROCADA

A asa de um morcego transparente
e no canto um olho descaído
de pestanas longas espreitando
o ácido viscoso da loucura
escorrendo pelos telhados do mundo

Viajante incansável do pasmo
no silêncio das órbitas vagabundas
dos mares-mortos delírio-espasmo
do cansaço mole das brisas vazias
que do nada se afirmam nas florestas
do ódio de gigantes e anões liliputianos

Blocos monolíticos tristes quedos
imagens-desespero cancerosos
miasmas-visco cobras moribundas
agonizando em convulsões de magma
lanças setas envenenadas dirigidas
ao coração das virgens e crianças

Sombra parda pálida acutilante
teu vulto de insônia transparente
bóia nas trevas flutuantes
da noite dos espiões pelas estradas
das feras que matam as ovelhas
e apunhalam pastores no caminho

Sombra feroz invernal medonha
destroços e cadáveres pútridos
sugando o seio das madonas
e acalentando monstros nas cavernas
pelas horas taciturnas do medo dos teus passos.

(Luanda, 1977)


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From: QUIM TROVADOR Sent: 25/04/2010 16:01
FILINTO ELíSIO





Praia, 1961. Poeta . Obra poética: Amanhã amadrugada, 1993; Li cores & Ad vinhos, 2009.







HAIKAI AGRIDOCE (POESIA III)





Ao Mito



a flor de lotus, o mel de abelha, a borboleta exótica...

ainda que cuidemos do nosso jardim de sonhos

no vinagre dos dias haverá sol para o cravo do amanhecer?





ACERCA DO AMOR



Do amor só digo isto:



o sol adormece ao crepúsculo

no oferecido colo do poente

e nada é tão belo e íntimo,



0 resto é business dos amantes.

Dizê-lo seria fragmentar a lua inteira.







Página publicada em outubro de 2009

 


JOSÉ LUIZ HOPFFER ALMADA



JOSÉ LUIZ HOPFFER C. ALMADA utiliza os nomes literários Zé di Sant’y Águ, Erasmo Cabral d’Amada, Tuna Furtado, Dionísio de Deus y Fonteana e Alma Dofer.



Nasceu a nove de dezembro de 1960, no sítio de Kel-Len (Pombal), Conselho de Santa Catarina (Ilha de Santiago), EM Cabo Verde.



A partir dos quatro anos de idade passou a residir com a família em Assombra, onde concluiu o Ensino Primário e o Ciclo Preparatório.



Cursou os Liceus na Cidade Ada Praia, onde exerceu destacadas funções no movimento associativo estudantil e no seio da Juventude estudante Africana Cabral, liceal, de que foi militante até 1979. Enquanto estudante exerceu funções de responsabilidade em vários campos agropolíticos, tendo participado do XI Festival da Juventude e Estudantes (Cuba, 1978) e do Seminário de Cultura de Rufisque (Senegal, 1979).

Licenciou-se em Direito pela Universidade Karl Marx, de Leipzig (1984). Foi co-fundador do Núcleo e do Movimento Pró-Cultura e da Revista de Artes, Letras e Cultura Fragmentos, de que é Diretor, um dos principais dinamizadores do Voz di Letra (suplemento cultura do jornal Voz di Povo) e a realizador do programa radiofônico de cultura “Gentes, Idéias, Cultura”.



Foi-lhe atribuído, em 1978, o primeiro prêmio do Concurso Literário Nacional e, em 19779, o segundo prêmio ex-aequo do Concurso Literário Nacional, realizado nesse ano.Integrou a Comissão Nacional para o Acordo Ortográfico (1986/87), o júri do prêmio “Jorge Barbosa” (1987), a Comissão Nacional da Língua Cabo-verdiana e o conselho Nacional de Cultura. É membro fundador da Pro-Associação e da Associação dos Escritores Cabo-verdianos, bem como Associação dos Amigos do Conselho de Santa Catarina, cujas Direções integra.



Participou do Simpósio sobre a Literatura e a Cultura Cabo-verdianas (Mindelo, 1986), do Simpósio Integral sobre a Poesia e o Sagrado (Liège, Bélgica, 1990), do Encontro sobre a Música Nacional (Praia, 1988) e de várias mesas-redondas sobre a Cultura. Tem trabalhos publicados no Voz di Letra, no VP – Caderno2, no Voz di Povo, no Jornal de Angola, nas revistas Fragmentos, Ponto e Virgula, Pré-textos, Seiva e Artiletra. Consta da antologia Changing Afrika, organizada pelo professor Gerald Moser (1992). Exerceu as funções de Diretor do Gabinete de Assuntos Jurídicos e de Legislação da Chefia do Governo. Para além da antologia Mirabilis – De Veias ao Sol, publicou à Sombra do Sol I e à Sombra do Sol II. Reside na Cidade da Praia.

Foi Redator Geral da IV Mesa-Redonda Afro-Luso-Brasileira (1994).





“Assomada, uma região orgulhosa de si”





AUTOBIOGRAFIA



Nasci numa aldeia

à sombra de um sobrado

e da austera penumbra das montanhas



Ainda criança

galguei a orografia de Assomada

e fiz-me árvore do planalto



O serpentear das estradas

fez-me desembocar no mar

junto a uma cidade

enfeitiçada de azul e murmúrio



De costas para o mar

insinuei-me – para além da ilha –

na lenta e transparente caminhada das nuvens

para beijar loucamente

a neve com odor de carvão de Leipzig



Hoje sei quem sou

um simples signo da Adão e Eva

e do seu éden pétreo no Piku Ntoni





MITOLOGIA CRIOULA



(In memorian do profeta Nhu Naxu)



Nabucodonosor!

Nabucodonosor!



Onde estão a tua espada

e a tua raiva

nas brumas suculentas de Santiago?



Os templos caíram em ruínas

desde quando a eternidade

ruía defronte dos galeões

e desfazia-se nos basaltos das ribeiras



As cidades de tão velhas

metamorfosearam-se em aldeias

e cobriam as faces da amnésia



Os campos continuam perscrutantes

e oferecem olhares melancólicos às urbes

do nosso querer



Os homens esses encontram-se presos

em plena cidade

pelas ncoras do vento



Nabucodonosor!

Nabucodonosor!





SONHOS à SOMBRA



(Para o meu amigo Cndido de Oliveira)





Ó sonhos que estais à sombra

não estais decerto moribundos

quando

simplesmente à sombra estais

anônimos ao ombro da noite



Ó sonhos que estais à sombra

não sois decerto sombrios

quando à sombra

nos rios do escuro crepúsculo

navegais



Cansados da podridão e do calor

e do fétido odre de pesadelos

que é o dia



Ó sonhos

estais decerto à sombra

anódinos

esperando o tempo de ser nuvem!...





NãO TENHO DIAS TRIUNFAIS





(In memorian de Fernando Pessoa,correspondente comercial e poeta, e de Antônio Nunes, sagitário)





Ausente da memória

vejo os dias

caminhar irreversíveis

para o Sono e o lento Olvido da Esperança



Restam-me a branca pedra de neve

a estação da Meditação

as longas tardes outonais

e a rememoração de Outubro



Lentas passam as vozes

e permanecem

como súbitos e conjecturais resquícios

do Tempo



ausente da Memória que de mim

e da cinzenta pedra de neve se afastam

E a arcada da Maturidade é, então, o rosto

mais recente do Olvido



Minuciosamente

vejo a Ausência incrustar-se à Memória

num breve xisto das palavras

Não tenho dias triunfais





à SOMBRA DOS TÚMULOS



(Ao Valdemar Velhinho Rodrigues)



Também eu

anódino espectro de pseudônimos

à sombra dos túmulos

na penumbra das metáforas

procuro a perdida alma

dos caminhos do crepúsculo

e da súbita reaparição

dos vates do amanhecer



Não sei se no horizonte

é o crepúsculo ou a aurora

que se divisam

como não sei qual é

o rosto verdadeiro de Deus

se ele é o demiurgo primeiro dos

heterônimos da Santíssima Trindade

ainda Fernando Pessoa era

uma hipótese de rand

sob a sombra do sol.







Extraído de ROZÁRIO, Denira. Palavra de Poeta; Cabo Verde – Angola. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999.

Página publicada em novembro de 2008.

 


Agostinho Neto


"Ó negro esfarrapado do Harlem / ó dançarino de Chicago / ó negro servidor do South / Ó negro de África / negros de todo o mundo / eu junto ao vosso canto / a minha pobre voz / os meus humildes ritmos."

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Biografia

Poemas:
Quitandeira
Voz de sangue
Mussunda amigo
Contratados
Aspiração
Poesia africana
Fogo e ritmo
Kinaxixi
Noite
Consciencialização
Civilização ocidental
Adeus à hora da largada

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Biografia

Nasceu em Catete, Angola, em 1922, faleceu em 1979. Estudos primários e secundários em Angola, licenciado em Medicina pela Universidade de Lisboa. Em Portugal, sempre esteve ligado à actividade política, onde com Lúcio Lara e Orlando de Albuquerque fundou a revista Momento, em 1950. Como aconteceu a outros escritores africanos foi preso e desterrado para Cabo Verde, tendo mais tarde conseguido a fuga para o continente. Presidente do MPLA, foi o primeiro presidente de Angola.

Obra Poética:
Quatro Poemas de Agostinho Neto, 1957, Póvoa do Varzim, e.a.;

Poemas, 1961, Lisboa, Casa dos Estudantes do Império;

Sagrada Esperança, 1974, Lisboa, Sá da Costa (inclui os poemas dos dois primeiros livros);

A Renúncia Impossível, 1982, Luanda, INALD (edição póstuma).


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Quitandeira

A quitanda.
Muito sol
e a quitandeira à sombra
da mulemba.

- Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!

A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega.

A quitandeira
que vende fruta
vende-se.

- Minha senhora
laranja, laranjinha boa!

Compra laranja doces
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.

Compra-me a infncia do espírito
este botão de rosa
que não abriu
princípio impelido ainda para um início.

Laranja, minha senhora!

Esgotaram-se os sorrisos
com que chorava
eu já não choro.

E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem.

Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.

Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.

Tudo tenho dado.

Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-as aos poetas.

Agora vendo-me eu própria.
- Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da Vida
o meu preço é único:
- sangue.

Talvez vendendo-me
eu me possua.

- Compra laranjas!

(Sagrada esperança)

Voz do sangue

Palpitam-me
os sons do batuque
e os ritmos melancólicos do blue

Ó negro esfarrapado do Harlem
ó dançarino de Chicago
ó negro servidor do South

Ó negro de África

negros de todo o mundo

eu junto ao vosso canto
a minha pobre voz
os meus humildes ritmos.

Eu vos acompanho
pelas emaranhadas áfricas
do nosso Rumo

Eu vos sinto
negros de todo o mundo
eu vivo a vossa Dor
meus irmãos.

(A renúncia impossível)
Mussunda amigo

Para aqui estou eu
Mussunda amigo
Para aqui estou eu

Contigo
Com a firme vitória da tua alegria
e da tua consciência

O ió kalunga ua mu bangele!
O ió kalunga ua mu bangele-lé-leleé...

Lembras-te?

Da tristeza daqueles tempos
em que íamos
comprar mangas
e lastimar o destino
das mulheres da Funda
dos nossos cantos de lamento
dos nossos desesperos
e das nuvens dos nossos olhos
Lembras-te?

Para aqui estou eu
Mussunda amigo

A vida a ti a devo
à mesma dedicação ao mesmo amor
com que me salvaste do abraço
da jibóia

à tua força
que transforma os destinos dos homens

A ti Mussunda amigo
a ti devo a vida

E escrevo versos que não entendes
compreendes a minha angústia?

Para aqui estou eu
Mussunda amigo
escrevendo versos que tu não entendes

Não era isto
o que nós queríamos, bem sei

Mas no espírito e na inteligência
nós somos!

Nós somos
Mussunda amigo
Nós somos

Inseparáveis
e caminhando ainda para o nosso sonho

No meu caminho
e no teu caminho
os corações batem ritmos
de noites fogueirentas
os pés dançam sobre palcos
de místicas tropicais
Os sons não se apagam dos ouvidos

O ió kalunga ua mu bangele...

Nós somos!

(Sagrada esperança)

Contratados

Longa fila de carregadores
domina a estrada
com os passos rápidos

Sobre o dorso
levam pesadas cargas

Vão
olhares longínquos
corações medrosos
braços fortes
sorrisos profundos como águas profundas

Largos meses os separam dos seus
e vão cheios de saudades
e de receio
mas cantam

Fatigados
esgotados de trabalhos
mas cantam

Cheios de injustiças
calados no imo das suas almas
e cantam

Com gritos de protesto
mergulhados nas lágrimas do coração
e cantam

Lá vão
perdem-se na distncia
na distncia se perdem os seus cantos tristes

Ah!
eles cantam...

(Sagrada esperança)

Aspiração

Ainda o meu canto dolente
e a minha tristeza
no Congo, na Geórgia, no Amazonas

Ainda
o meu sonho de batuque em noites de luar

ainda os meus braços
ainda os meus olhos
ainda os meus gritos

Ainda o dorso vergastado
o coração abandonado
a alma entregue à fé
ainda a dúvida

E sobre os meus cantos
os meus sonhos
os meus olhos
os meus gritos
sobre o meu mundo isolado
o tempo parado

Ainda o meu espírito
ainda o quissange
a marimba
a viola
o saxofone
ainda os meus ritmos de ritual orgíaco

Ainda a minha vida
oferecida à Vida
ainda o meu desejo

Ainda o meu sonho
o meu grito
o meu braço
a sustentar o meu Querer

E nas sanzalas
nas casas
no subúrbios das cidades
para lá das linhas
nos recantos escuros das casas ricas
onde os negros murmuram: ainda

O meu desejo
transformado em força
inspirando as consciências desesperadas.

(Sagrada esperança)

Poesia Africana

Lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas escuras dos imbondeiros
de braços erguidos
No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas

Poesia africana

Na estrada
a fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
No quarto
a mulatinha dos olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó de arroz
A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
Na cama
o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa

No céu o reflexo
do fogo
e as silhuetas dos negros batucando
de braços erguidos
No ar a melodia quente das marimbas

Poesia africana

E na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem insone

Os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente dos horizontes em fogo.

(No reino de Caliban II - antologia
panormica de poesia africana de ex-
pressão portuguesa)
Fogo e ritmo

Sons de grilhetas nas estradas
cantos de pássaros
sob a verdura úmida das florestas
frescura na sinfonia adocicada
dos coqueirais
fogo
fogo no capim
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte.
Caminhos largos
cheios de gente cheios de gente
em êxodo de toda a parte
caminhos largos para os horizontes fechados
mas caminhos
caminhos abertos por cima
da impossibilidade dos braços.
Fogueiras
dança
tamtam
ritmo

Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no movimento
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços
ritmo nas unhas descarnadas
Mas ritmo
ritmo.

Ó vozes dolorosas de África!


(Sagrada esperança)
Fire and rhythm
The sound of chains on the roads
the songs of birds
under the humid greenery of the forest
freshness in the smooth symphony
of the palm trees
fire
fire on the grass
fire on the heat of the Cayatte plains
Wide paths
full of people full of people
an exodus from everywhere
wide paths to closed horizons
but paths
paths open atop
the impossibility of arm
fire
dance
tum tum
rhythm

Rhythm in light
rhythm in color
rhythm in movement
rhythm in the bloody
cracks of bare feerhythm on torn nails
yet rhythm
rhythm

Oh painful African voices


(Sacred hope)
kinaxixi

Gostava de estar sentado
num banco do kinaxixi
às seis horas duma tarde muito quente
e ficar...
Alguém viria
talvez sentar-se
sentar-se ao meu lado
E veria as faces negras da gente
a subir a calçada
vagarosamente
exprimindo ausência no kimbundu mestiço
das conversas
Veria os passos fatigados
dos servos de pais também servos
buscando aqui amor ali glória
além uma embriagues em cada álcool
Nem felicidade nem ódio
Depois do sol posto
acenderiam as luzes
e eu
iria sem rumo
a pensar que a nossa vida é simples afinal
demasiado simples
para quem está cansado e precisa de marchar.

(Sagrada esperança)

Noite

Eu vivo
nos bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.

Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.

São bairros de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.

Onde as vontades se diluíram
e os homens se confundiram
com as coisas.

Ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.

Também a noite é escura.

(Sagrada esperança)

Noche
yo vivo
en los barrios oscuros del mundo
sin luz ni vida.

voy por las calles
a tientas
apoyado en mis informes sueños
tropezando con la esclavitud
a mi deseo de ser.

barrios oscuros
mundos de miseria
donde las voluntades se diluyeron
con las cosas.

ando a los tropezones
por las calles sin luz
desconocidas
impregnadas de mística y terror
del brazo con fantasmas.

también la noche es oscura.


(Sagrada esperanza)
Consciencialização

Medo no ar!

Em cada esquina
sentinelas vigilantes incendeiam olhares
em cada casa
se substituem apressadamente os fechos velhos
das portas
e em cada consciência
fervilha o temor de se ouvir a si mesma

A historia está a ser contada
de novo

Medo no ar!

Acontece que eu
homem humilde
ainda mais humilde na pele negra
me regresso África
para mim
com os olhos secos.

(Sagrada esperança)


Civilização ocidental

Latas pregadas em paus
fixados na terra
fazem a casa

Os farrapos completam
a paisagem íntima

O sol atravessando as frestas
acorda o seu habitante

Depois as doze horas de trabalho
Escravo

Britar pedra
acarretar pedra
britar pedra
acarretar pedra
ao sol
à chuva
britar pedra
acarretar pedra

A velhice vem cedo

Uma esteira nas noites escuras
basta para ele morrer
grato
e de fome.

(Sagrada esperança)

Adeus à hora da largada

Minha Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

Mas a vida
matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
sou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos

Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.

(Sagrada esperança)




 


Reply  Message 7 of 7 on the subject 
From: QUIM TROVADOR Sent: 25/04/2010 16:03
 




Viagem Virtual Pela Poesia da África Lusófona
Por

Katharina Aulls
http://www.teiaportuguesa.com/poesiaafricalusofona/index.htm


Estudante do Mineur en Langue Portugaise et Cultures Lusophones


O encontro com as literaturas dos países lusófonos foi uma oportunidade, para mim de provar e saborear a riqueza das culturas lusófonas. Literaturas escritas na mesma língua, mas de cores variadas, consoante o país, a sua cultura e as suas tradições, desenham-se no horizonte literário um arco-íris na língua da Lusofonia: o Português.

As antigas colónias portuguesas de África e da Ásia que alcançaram a liberdade há mais ou menos 25 anos provocaram a emergência de escritores e poetas de expressão portuguesa, autores de todos os países lusófonos que publicam obras na língua de Saramago, Jorge Amado, Pepetela, Mia Couto, Craveirinha, Eugénia Neto.

. Estes autores são representantes da cultura específica do país que habitam e de onde escrevem. Alguns são autores de importncia maior para as literaturas de expressão portuguesa: a lusografia.

Todos os autores que seleccionámos são escritores contemporneos. Alda Espírito Santo (1926), é a primeira poetisa publicada de São Tomé, autora de uma poesia, que expressa o protesto e a luta, intimamente associados às aspirações do seu povo e à liberdade, é a escritora mais antiga. Germano Almeida (1945) advogado, jornalista e romancista premiado de Cabo Verde, desmascara a hipocrisia na sociedade cabo-verdiana com as armas do humor, que, pela lupa satírica, se transforma num paradigma de qualquer sociedade. Luís Cardoso (1955?) de Timor-Leste é considerado o primeiro romancista timorense. Abdulai Sila(1958) escreveu o primeiro romance guineense. O seu romance Eterna Paixão descreve a transformação pós-colonial da sociedade guineense. Pepetela (1941) angolano, fez uma opção política que viria a mudar o rumo da sua vida e a marcar toda a sua numerosa obra (uma dezena de romances), tornando-se no narrador por excelência da História de Angola. José Eduardo Agualusa (1960), angolano também, é o exemplo, por excelência, da escrita em crioulo português. O seu mais recente romance, Nação Crioula (1997), debruça-se sobre a história e a sociedade crioula e constitui uma afirmação de raízes que, contém em si, um projecto de futuro e de valores culturais angolanos e das culturas africanas. A sua escrita está tão enraizada na inovação semntica e estilística que as literaturas africanas têm imprimido à língua portuguesa. Mia Couto (1955), a voz mais destacada na literatura moçambicana, é o autor de língua portuguesa que maior novidade e frescura imprimiu à linguagem na última década. Mia Couto faz prova da sua capacidade imagética na recriação da semntica das palavras, através de um jogo neológico que irmana significados e dilata-os para criar uma atmosfera plena, de sonho e prenhe de possibilidades de leitura.

Depois desta panormica pelos autores que se expressam pela prosa, chegamos à poesia.
A poesia é caracterizada por ser uma expressão íntima e pessoal, escrita, no entanto, numa estrutura artística que estiliza as experiências pessoais, para as levar a um nível mais elevado e alcançar valores universais da humanidade. A experiência única torna-se numa verdade geral, numa metáfora de vida ou mesmo num mito.

Existe um Sítio de poemas na Rede, posto à nossa disposição pelo Senhor Joaquim Falé, que começou a mandar de Maputo em 1996 artigos e poemas de autores africanos para a lista pt-net@inesc.pt. Este apreciador de poesia e os seus amigos mandaram pelo menos duzentos e cinquenta poemas escolhidos por entre obras de poetas ou de colecções de poesia, muitas delas recentemente publicadas.
Embora os poemas sejam só uma selecção de poesia africana, o mandador Falé escolheu obras de uma grande variedade de poetas e de temas muito diversos. Esta colecção compreende cerca 100 poetas (mas somente 8 são femininos) dos países africanos, antigas colónias portuguesas. A maioria dos poetas desta colecção de poemas são angolanos (36) e moçambicanos (36). Bem representado está Cabo Verde com 18 poetas, Guiné-Bissau com 3, e São Tomé e Príncipe com 4. Incluídos estão também alguns poetas portugueses com ligações a África ou, aí radicados.

Viajando pela poesia da África lusófona, vêem-se os mesmos temas em cada país. Organizei os poemas segundo categorias de sete temas gerais, tais como:
1) Sofrimento
2) Esperança
3) Ser Africano
4) Vida Política (Patriotismo, Guerra Civil)
5) Família e Natureza
6) Amor e Saudade
7) Cultura (Lendas, Arte Poética, Filosofia)


É claro que muitos poemas tratam mais do que um tema. Combinam, por exemplo, o sofrimento com a esperança "num amanhã melhor", ou fazem interagir o amor da mulher negra com o seu amor por África.



Conclusão

Chegamos ao fim da nossa viagem pela poesia lusófona da África e perguntamo-nos em que medida esta poesia é uma contribuição para a definição da Lusofonia. A poesia africana enriquece a língua e a cultura portuguesas com o encanto de África: Por exemplo nas descrições de variadas manifestações culturais, de paisagens tropicais com animais como zebras, tigres, aves exóticas; com os retratos de vida familiar e da natureza que participa nesta vida e que é o lugar dos espíritos pagãos, com retratos dos poentes em cores sensuais e sedutoras, e sobretudo na interpretação de África enfeitiçada, do universo mágico da metáfora e do símbolo. A poesia africana enriquece a língua portuguesa com um vocabulário específico. Os poetas recriam e manifestam nesta língua os ritmos das danças africanas, como a batuque, a massemba, a rebita, e os requebros das mulheres negras. Os poetas encantam a língua portuguesa com o estilo e ritmos africanos e com nomes e palavras não-traduziveis e não-traduzidos.
Esta poesia de África, enquanto enriquecedora e participante na experiência da língua da lusofonia, não mostra nenhuns laços culturais com Portugal. Pelo contrário. A poesia africana cria uma cultura de identidade que é só africana. O paradoxo é que precisa da língua portuguesa, a língua do opressor, para se libertar desta influência e da identificação com ele.
A poesia de África manifesta a sua própria identidade na dignidade do seu sofrimento, e na sua paciência e perseverança.
Diz-se que os poetas compõem e tecem verdades de fibras de essência humana, além da história, além da vida diária. Ou, talvez, digamos (com João Maimona) que os poetas revelam e libertam estas verdades. A poesia medita sobre os valores humanos, a poesia é o sonho (Alda Espírito Santo) com a "mais bela de todos as lições - humanidade." A Lusofonia, na poesia de expressão portuguesa, participa e compartilha esse sonho.

 r




FRANCISCO JOSÉ TENREIRO


(1921-1963)

Nasceu na ilha de São Tomé donde partiu, ainda novo, para o Continente onde estudou em Lisboa. Foi professor no Instituto de Ciências Sociais e Política Ultramarina.

Obras: Ilha do Nome Santo, "Novo Cancioneiro", Coimbra, 1942; Obra Poética de Francisco José Tenreiro, 1967; A Ilha de São Tomé-Estudo Geográfico, Lisboa, 1961




CORAçãO



Caminhos trilhados na Europa

de coração em África.

Saudades longas de palmeiras vermelhas verdes amarelas

tons fortes da paleta cubista

que o sol sensual pintou na paisagem;

saudade sentida de coração em África



ao atravessar estes campos do trigo sem bocas

das ruas sem alegria com casas cariadas

pela metralha míope da Europa e da América

da Europa trilhada por mim negro de coração em África.

De coração em África na simples leitura dominical

dos períodos cantando na voz ainda escaldante da tinta

e com as dedadas de miséria dos ardinas das cities

[boulevards e baixa da Europa

trilhada por mim Negro e por ti ardina

cantando dizia eu em sua voz de letras as melancolias do

[orçamento que não equilibra

do Benfica venceu Sporting ou não

ou antes ou talvez seja que desta vez vai haver guerra

para que nasçam flores roxas de paz

com fitas de veludo e caixões de pinho;

oh as longas páginas do jornal do mundo

são folhas enegrecidas de macabro clue

com mourarias de facas e guernicas de toureiros.

Em três linhas (sentidas saudades de África) –

Mac Gee cidadão da América e da democracia

Mac Gee cidadão Negro e da negritude

Mac Gee cidadão Negro da América e do Mundo Negro

Mac Gee fulminado pelo coração endurecido feito cadei-

[ra eléctrica

(do cadáver queimado de Mac Gee do seu coração em

[África e sempre vivo

floriram flores vermelhas flores vermelhas flores vermelhas

e também azuis e também verdes e também amarelas

na gama policroma da verdade do Negro

na inocência de Mac Gee) – ;

três linhas no jornal como falso cartão de pêsames.

Caminhos trilhados na Europa

de coração em África.

De coração em África com o grito seiva bruta dos poemas

[de Guillén

de coração em África com a impetuosidade viril de I tôo

[am América

de coração em áfrica com as árvores renascidas em

[todas estações nos belos poemas de Diop

de coração em África nos rios antigos que o Negro

[conheceu e no mistério do Chaka-Senghor

de coração em África contigo amigo Joaquim quando em

[versos incendiários

cantaste a África distante do Congo da minha saudade do

[Congo de coração em África

de Coração em África ao meio-dia do dia de coração em

[África

com o Sol sentado nas delícias do zênite

reduzindo a pontos as sombras dos Negros.

Amodorrando no próprio calor da reverberação os mos-

[quitos da nocturna picadela.

De coração em África em noites de vigília escutando o

[olho mágico do rádio

e a rouquidão sentimento das inarmonias de Armstrong.

De coração em África em todas as poesias gregárias ou

[escolares que zombam

e zumbem sob as folhas de couve da indiferença

mas que têm a beleza das rodas de crianças com papagaios

[garridos

e jogos de galinha branca vai até França

que cantam as volutas dos seios e das coxas das negras e

[mulatas

de olhos rubros como carvões verdes acesos.

De coração em África trilho estas ruas nevoentas da cidade

de África no coração e um ritmo de be bop be nos lábios

enquanto que à minha volta sussura olha o preto (que

[bom) olha um negro (óptimo) olha um mulato

[(tanto faz) olha um moreno (ridículo)

e procuro no horizonte cerrado da beira-mar

cheiro de maresias distantes e areias distantes

com silhuetas de coqueiros conversando baixinho à brisa

[da tarde

De coração em África na mão deste Negro enrodilhado e

[sujo de beira-cais

vendendo cautelas com a incisão do caminho da cubata

[perdida na carapinha alvinitente;

de coração em África com as mãos e o pés trambolhos

[disformes

e deformados como os quadros de Portinari dos

[estivadores do mar

e dos meninos ranhosos viciados pelas olheiras fundas

[das fomes de Pomar

vou cogitando na pretidão do mundo que ultrapassa a

[própria cor da pele

dos homens brancos amarelos negros ou às riscas

e o coração entristece à beira-mar da Europa

da Europa por mim trilhada de coração em África;

e chora fino na arritmia de um relógio cuja corda vai estalar

soluça a indignação que fez os homens escravos dos

[homens

mulheres escravas de homens crianças escravas de

[homens negros escravos dos homens

e também aqueles que ninguém fala e eu Negro não

[esqueço

como os pueblos e os xavantes os esquimós os ainos eu

[sei lá

que são tantos e todos escravos entre si.

Chora coração meu estala coração meu enternece-te meu

[coração

de uma só vez (oh órgão feminino do homem)

de uma só vez para que possa pensar contigo em África

na esperança de que para o ano vem a monção torrencial

que alagará os campos ressequidos pela amargura da

[metralha e adubados pela cal dos ossos de Taszlitzki

na esperança de que o Sol há-de prenhar as espigas de

[Trigo para os meninos viciados

e levará milho às cabanas destelhadas do último rincão da

[Terra

distribuíra o pão o vinho e o azeite pelos alíseos;

na esperança de que às entranhas hiantes de um menino

[antípoda

haja sempre uma túlipa de leite ou uma vaca de queijo

[que lhe mitigue a sede da existência.

Deixa-me coração louco

Deixa-me acreditar no grito de esperança lançado pela

[paleta viva de Rivera

E pelos oceanos de ciclones frescos das odes de Neruda;

deixa-me acreditar que do desespero másculo de Picasso

[sairão pombas

que como nuvens voarão os céus do mundo de coração

[em África.





RITMO PARA A JÓIA DAQUELA ROçA



Dona Jóia dona

dona de lindo nome

tem um piano alemão

desafinando de calor.



Dona Jóia dona

do nome de Sum Roberto

está chorando nos seus olhos

de outras terras saudades.



Dona Jóia dona

dona de tudo que é lindo:

do oiro cacaueiro

do café de frutos vermelhos

das brisas da nossa ilha.



Dona Jóia dona

dona de tudo que é triste:

meninos de barriga oca

chupando em peitos chatos;

negros de pezão grande

trabalhando pelos matos.



Ai! Dona Jóia,

dona de mim também –

Jesus, Maria, José

Credo! –

não me olhe assim-sim

que me pára o coração!





CANçãO DO MESTIçO



Mestiço



Nasci do negro e do branco

e quem olhar para mim

é como que se olhasse

para um tabuleiro de xadrez:

a vista passando depressa

fica baralhando cor

no olho alumbrado de quem me vê.



Mestiço!



E tenho no peito uma alma grande

uma alma feita de adição.



Foi por isso que um dia

o branco cheio de raiva

contou os dedos das mãos

fez uma tabuada e falou grosso:

– mestiço!

a tua conta está errada.

Teu lugar é ao pé do negro.



Ah!

Mas eu não me danei...

e muito calminho

arrepanhei o meu cabelo para trás

fiz saltar fumo do meu cigarro

cantei alto

a minha gargalhada livre

que encheu o branco de calor!...



Mestiço!



Quando amo a branca

sou branco...

Quando amo a negra

sou negro.

Pois é...





FRAGMENTO DE BLUES

(A Langston Hughes)



Vem até mim

nesta noite de vendaval na Europa

pela voz solitária de um trompete

toda a melancolia das noites de Geórgia;

oh! mamie oh! mamie

embala o teu menino

oh! mamie oh! mamie

olha o mundo roubando o teu menino.



Vem até mim

ao cair da tristeza no meu coração

a tua voz de negrinha doce

quebrando-se ao som grave dum piano

tocando em Harlem:

– Oh! King Joe

King Joe

Joe Louis bateau Buddy Baer

E Harlem abriu-se num sorriso branco

Nestas noites de vendaval na Europa

Count Basie toca para mim

e ritmos negros da América

encharcam meu coração;

– ah! ritmos negros da América

encharcam meu coração!

E se ainda fico triste

Langston Hughes e Countee Cullen

Vêm até mim

Cantando o poema do novo dia

– ai! os negros não morrem

nem nunca morrerão!



...logo com eles quero cantar

logo com eles quero lutar

– ai! os negros não morrem nem

nem nunca morrerão!





MãOS



Mãos que moldaram em terracota a beleza e a serenidade do Ifé.

Mãos que na cera polida encontram o orgulho perdido do Benin.

Mãos que do negro madeiro extraíram a chama das estatuetas olhos de vidro

e pintaram na porta das palhotas ritmos sinuosos de vida plena:

plena de sol incendiando em espasmos as estepes do sem-fim

e nas savanas acaricia e dá flores às gramíneas da fome.

Mãos cheias e dadas às labaredas da posse total da Terra,

mãos que a queimam e a rasgam na sede de chuva

para que dela nasça o inhame alargando os quadris das mulheres

adoçando os queixumes dos ventres dilatados das crianças

o inhame e a matabala, a matabala e o inhame.



Mãos negras e musicais (carinhos de mulher parida) tirando da pauta da Terra

o oiro da bananeira e o vermelho sensual do andim.

Mãos estrelas olhos nocturnos e caminhantes no quente deserto.

Mãos correndo com o harmatan nuvens de gafanhotos livres

criando nos rios da Guiné veredas verdes de ansiedades.

Mãos que à beira-do-mar-deserto abriram Kano à atracção dos camelos da ventura

e também Tombuctu e Sokoto, Sokoto e Zária

e outras cidades ainda pasmadas de solenes emires de mil e mais noites!





Mãos, mãos negras que em vós estou pensando.



Mãos Zimbabwe ao largo do Indico das pandas velas

Mãos Mali do sono dos historiadores da civilização

Mãos Songhai episódio bolorento dos Tombos

Mãos Ghana de escravos e oiro só agora falados

Mãos Congo tingindo de sangue as mãos limpas das virgens

Mãos Abissínias levantadas a Deus nos altos planaltos:

Mãos de África, minha bela adormecida, agora acordada pelo relógio das balas!



Mãos, mãos negras que em vós estou sentindo!



Mãos pretas e sábias que nem inventaram a escrita nem a rosa-dos-ventos

mas que da terra, da árvore, da água e da música das nuvens

beberam as palavras dos corás, dos quissanges e das timbilas que o mesmo é

dizer palavras telegrafadas e recebidas de coração em coração.

Mãos que da terra, da árvore, da água e do coração tantã

criastes religião e arte, religião e amor.



Mãos, mãos pretas que em vós estou chorando!





CANTO DE OBÓ



O sol golpeia as costas do negro

e os rios de suor ficam correndo.



Ardor!



Os olhos do branco

como chicotes

ferem o mato que está gritando...



Só o água sussurante/calmo

corre prao mar

tal qual a alma da terra!

topo





O MAR



A voz branca que está no mato

perde-se na imensidão do mar.

Lá vai!

O sol bem alto

é uma atrapalhação de cor.

-Abacaxi safo nona

carregozinho do barco!...



Um tubarão passando

é um risco de frescura.

Lá vai!



O barco deslizando

só com a vontade livre e certa do negro

lá vai!

........
 


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